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Literatura

O elogio do fazer

Em A Chave Estrela Primo Levi discute a distância que separa o agir do pensar, e a liberdade do trabalho

Arbeit Macht Frei (só o trabalho liberta): máxima inscrita no portão de entrada de campo de concentração de Auschwitz - Birkenau, onde Primo Levi ficou preso durante um ano | Arquivo
Arbeit Macht Frei (só o trabalho liberta): máxima inscrita no portão de entrada de campo de concentração de Auschwitz - Birkenau, onde Primo Levi ficou preso durante um ano (Foto: Arquivo)

Há uma distância imensa, quase um fosso intransponível, entre o agir e o dizer – daí que quem faz raramente consegue contar, com perspicácia, os próprios feitos. Tal nuance é um dos motores e ponto central do livro de contos A Chave Estrela, do escritor italiano Primo Levi (1919-1987), recém-publicado no Brasil.

Os textos inventivos de Levi são formados a partir da interação de dois personagens: Faussone, que representa o sujeito hábil para atividades manuais, e o narrador, um químico – alter ego do autor, que esteve envolvido profissionalmente com a química até 1978. "Faussone declarou-me livre para contar suas histórias, e foi assim que este livro nasceu", revela, de pasagem, em meio a um dos enredos, o narrador.

Faussone e o narrador são dois pólos um tanto opostos. O personagem que se move não revela interesse em manter residência fixa, o que inclui opção preferencial por não se casar e, sobretudo, um desejo prazeroso de conhecer o mundo. "Havia duas alternativas: esperar ficar rico e depois me transformar num turista ou então trabalhar como montador. Eu optei por ser um montador."

O narrador, por sua vez, é quase um sujeito oculto em todas as tramas. O que ele faz, e que não é pouco, é proporcionar complexidade às venturas e desventuras de Faussone. Nos breves, mas intensos momentos em que "reflete" sobre si mesmo, é certeiro – e os comentários dizem respeito a escritores (de maneira geral): "O ofício de escrever atrai preferencialmente pessoas predispostas à neurose. (...) Muitos vivem mal, são tristes, bebem, fumam, não conseguem dormir e morrem cedo."

Nesse "embate" entre quem faz e quem narra, o que se evidencia é um libelo pela liberdade. A Chave Estrela, lido em sua totalidade, traz nas linhas (e mesmo nas entrelinhas) uma espécie de manifesto por uma vida sem travas e atrelamentos, com janelas abertas para as ações do acaso. O conto "Bater Chapa" exemplica, como poucos, essa nuance.

O pai de Faussone decidiu

"bater chapa" em sua própria oficina, mesmo com a perspectiva de se tornar obsoleto, e jamais aceitou ser empregado. "Se excluirmos os instantes prodigiosos e singulares que o destino nos pode dar, amar o próprio trabalho (o que, infelizmente, é privilégio de poucos) constitui a melhor aproximação concreta da felicidade na Terra: mas esta é uma verdade que não muitos conhecem." O pai de Faussone, modelo inspirador de sua postura existencial, era – de acordo com o filho – não apenas feliz, mas um homem pleno.

A condução dos enredos não se guia, necessaria e obrigatoriamente, pela linearidade. O narrador recupera eventuais trajetórias de Faussone, mas também se deixa guiar por devaneios e, em alguns casos, solta informações para, ao final, arrematar com alguma máxima. No conto "A Dupla Cônica", após não pouca tergiversação sistemática sobre "tudo", há uma frase definitiva a respeito da necessidade do labor: "Acredito, sinceramente, que para viver feliz é preciso ter alguma coisa para fazer, mas uma coisa que não seja muito fácil."

Faussone e narrador se completam, como se fossem Quixote e Pancho, em outra circunstância, ou ainda mão e luva, ambas necessárias. "Não, eu nunca me queixei do meu destino e, além disso, se me queixasse, seria um imbecil, porque fui eu mesmo que o escolhi: queria conhecer outros países, trabalhar com prazer e não me envergonhar do dinheiro que ganho, e tudo o que quis consegui", diz, em tom de arremate, o personagem inventado pelo narrador.

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Serviço

A Chave Estrela. Primo Levi. Companhia das Letras. 198 págs. R$ 39,50.

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