
Cabe ao espectador a posição de voyeur de perturbações emocionais alheias em dois dramas psicológicos escalados para o 23.º Festival de Curitiba: Sonata de Otoño, versão do diretor argentino Daniel Veronese para o filme de Ingmar Bergman; e Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Edward Albee, ora dirigida por Victor Garcia Peralta.
Curiosamente, em 1963, o próprio Bergman dirigiu a estreia europeia de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, pouco após assumir o comando do Royal Dramatic Theatre, na Suécia. De fato, havia entre o dramaturgo americano e o diretor sueco um interesse em comum por retratar tensões emocionais extremas em ambientes íntimos.
Sonata de Outono (1978) é um dos filmes mais emblemáticos da fase madura do cineasta. O diretor argentino Daniel Veronese interessou-se pela "trama teatral", em especial, a relação entre mãe e filha. "Ter filhos, como esses filhos nos modificam, ser filho e não ser amado, deixar de ser filho e começar a ser pai: essas são as coisas que mais me impressionam nesse Bergman", diz Veronese.
Esta é a primeira vez que uma de suas montagens com atores argentinos vem a Curitiba. Além de ser um dos diretores de teatro mais importantes da Argentina desde a criação do grupo Periférico de Objetos (do qual se afastou na última década), Veronese também é o mais conhecido no Brasil. E cada vez mais montado aqui.
Os mineiros do Espanca! fizeram, sob a direção do autor, O Líquido Tátil. Já a CiaSenhas começou com Circo Negro e, neste ano, encena Obscura Fuga da Menina Apertando sobre o Peito um Lenço de Renda, no Fringe.
Atualmente, o argentino trabalha em busca de um teatro "puro", em que as figuras do diretor, do autor e do ator "desapareçam" das vistas do público, de modo que este se sinta assistindo a algo que se passa com seu vizinho e não lhe fosse apropriado ver.
Em Sonata de Otoño, o conflito se dá quando a mãe, uma pianista famosa, retorna para visitar a filha, a quem não via há anos. "O desafio maior talvez tenha sido conseguir contundência em sequências baseadas quase exclusivamente em discussões, recordações tormentosas, falta de amor, mas quase sempre fundadas na palavra e nas emoções que produzem. É necessário atores com potência e interioridades especiais", diz o diretor.
Frustrações
O jogo de forças em Quem Tem Medo de Vírginia Woolf? é travado entre o casal Marta e Jorge. Eles expõem suas frustrações na noite em que recebem a visita de outro par, num processo destrutivo das ilusões erguidas até então. Zezé Polessa e Daniel Dantas assumem os protagonistas: ele, um professor universitário cuja sonhada carreira de escritor não vingou; ela, a filha do reitor, que projeta suas ambições no marido.
"Albee a considera uma peça realista e, quando o chamam de autor do teatro do absurdo, não gosta desse rótulo", diz Peralta, diretor também de Sexo, Drogas e RocknRoll. O diretor investiu em um "realismo sem realismo", usando um mecanismo giratório no cenário para que o ponto de vista do espectador se altere em momentos determinados, dando novos sentidos ao que vê.
Para Zezé Polessa, esses giros acentuam uma relação com o espectador que é própria da arte teatral: "Todo público é voyeur de certa forma", diz.
A montagem de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? resulta de um longo processo de negociação com o autor americano. "Albee pede vários desenhos de cenário e figurino, a tradução, o que vai mudar", enumera Peralta.
Ele não fez alterações porque "concordava com cada vírgula daquilo". "Considero essa peça mãe do teatro contemporâneo de relacionamento homem-mulher", exalta. É evidente a influência de Albee sobre obras como Deus da Carnificina, de Yasmina Reza, que recebeu versão cinematográfica de Roman Polanski.
Assim como Sonata de Otoño, a peça de Albee também depende de uma boa direção de atores para orquestrar os contrastes e meios-tons contidos no subtexto dos diálogos. "Trabalhei um realismo absoluto, para que o espectador sentisse que está espionando o que acontece naquela sala", diz Peralta. Os deslocamentos em cena foram meticulosamente programados para não parecerem coreografados.
A ambientação nos anos 1960, época em que a peça foi escrita, foi mantida em razão da condição feminina. "Marta é uma mulher à frente do seu tempo, mas ainda cobra do marido que tenha sucesso. Está presa à convenção de que a mulher não pode dirigir uma universidade. É dependente dos homens, apesar de ser manipuladora", comenta o diretor.
Nesse ponto, descontadas as diferenças de complexidade e acidez na abordagem, a Marta de Albee em algo se aproxima da protagonista do monólogo Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido, parceria anterior entre Peralta e Zezé Polessa. "Os relacionamentos humanos mudaram pouco ou nada ao longo da história. Ainda existe a espera do príncipe para realizar os seus sonhos", opina Peralta.



