
Assistir a "O Grande Gatsby", segunda adaptação para o cinema do romance clássico do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald (1896-1940), lançado originalmente em 1925, não é uma experiência das mais fáceis. O filme, que estreia hoje no Brasil, é um gigantesco bolo de casamento. Ricamente ornamentado, com espessa camada de cobertura decorativa para impressionar e encher os olhos dos convidados, no fim das contas tem um recheio insosso. E bem indigesto.
O cineasta australiano Baz Luhrman, que já acertou em cheio com seu cinema de excessos maneiristas visuais e narrativos no musical "Moulin Rouge -- O Amor em Vermelho", erra a mão em "O Grande Gatsby". Investe tanto no brilho, nas festas e no clima dos chamados "anos loucos'', que acaba negligenciando as sutilezas da obra literária em que foi beber -- um romance de costumes que retrata de forma elegante, ainda que cruel, os bastidores da alta sociedade nova-iorquina do anos 20, na qual pontifica o triunfante e trágico "self made man" Jay Gatsby, que, em tese, seria a encarnação do sonho americano. Só que não.
A trama do filme gira, assim como o livro, em torno do triângulo amoroso formado por Gatsby (Leonardo DiCaprio), pela jovem beldade Daisy (Carey Mulligan) e por seu marido cafajeste Tom (Joel Edgerton) a primeira adaptação, de 1974, tinha Robert Redford, Mia Farrow e Bruce Dern nesses papéis, respectivamente. E conseguia ser ainda pior do que a de Luhrman, por cometer, justamente, o erro contrário: respeitar demais a obra de Fitzgerald e nunca decolar.
Quem nos conduz aqui pelo mundo de excessos dessa feérica Nova York dos anos 20 é o aspirante a escritor Nick Carraway (Tobey Maguire). Ele é vizinho de Gatsby, e um elo entre o milionário e Daisy, de quem o rapaz é primo. Enquanto vemos tudo através do olhar deslumbrado de Nick, e o protagonista não entra em cena, o filme se sustenta, porque, de certa forma, compartilhamos a sua perplexidade, mas à medida em que o foco narrativo se desloca de Nick para se concentrar no amor obsessivo de Gatsby por Daisy, que o desprezou no passado por ser um pobretão, o filme descamba, e se arrasta. Fica duro de engolir ao supervalorizar a forma, diluindo seu conteúdo em champanhe.



