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Memória

O grande produtor

Dino de Laurentiis, que morreu na última quinta-feira, esteve por trás de clássicos como A Estrada da Vida (1954) e Noites de Cabíria (1957)

O produtor italiano Dino De Laurentis recebeu, em 2001, o prêmio Irving Thalberg, concedido pelo conjunto de sua obra pela Academia de Hollywood | Lee Celano / AFP
O produtor italiano Dino De Laurentis recebeu, em 2001, o prêmio Irving Thalberg, concedido pelo conjunto de sua obra pela Academia de Hollywood (Foto: Lee Celano / AFP)

São Paulo - Morreu na última quinta-feira, em Los Angeles, o mitológico pro­­dutor italiano Dino de Laurentiis. Tinha 91 anos e morava havia muito tempo nos Estados Unidos. É raro que se dedique tanta atenção aos produtores, vistos em geral como homens de negócios, distanciados da verdadeira arte dos filmes. Dino, no entanto, foi um caso particular porque deixa uma marca forte na história do cinema.

Em sua longa carreira, produziu filmes de autores do porte de Roberto Rossellini, Federico Fellini e Mario Monicelli. Nos Estados Unidos, trabalhou com diretores como Sidney Lumet (Os Três Dias do Condor, 1975) e Michael Cimino (O Ano do Dragão, 1985). Deixou um currículo invejável de mais de 600 filmes produzidos e 59 prêmios internacionais. Só com Fellini recebeu dois Oscars de melhor filme estrangeiro – por A Estrada da Vida (1954) e Noites de Cabíria (1957). Em 2001, ele próprio recebeu um Oscar (o prêmio Irving Thalberg) por sua carreira. Em 2003, ganhou também um Leão de Ouro em Veneza pelo conjunto do trabalho.

Dino nasceu Agostino de Laurentiis em 8 de agosto de 1919, em Torre Annunziata, na Campânia, sul da Itália. Fez escola de cinema, trabalhou como extra e ator em filmes pouco memoráveis, serviu ao Exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial e, com a paz, encontrou seu verdadeiro lugar no mundo de cinema – o de produtor. Aquele que agencia financeiramente uma produção, provê a base ma­­terial da proposta do realizador, doma os projetos mais delirantes do cineasta e, se for grande, viabiliza o sonho sem castrar o artista. Dino fez isto muitas vezes. E de que outra maneira poderia trabalhar com um delirante profissional como Fellini?

Mas antes de chegar a Fellini, de Laurentiis produziu Giuseppe de Sanctis num filme destinado a ficar célebre, Arroz Amargo, nem tanto por sua história de plantadores de arroz, num registro neorrealista tardio e já um pouco adocicado, mas pela atriz que lançava, a extraordinária Silvana Mangano. Dino ficou tão impressionado com o talento da moça, e com suas longas pernas expostas no trabalho de plantio durante as filmagens, que se ca­­sou com ela. Tiveram quatro fi­­lhos e ficaram juntos até a morte de Silvana, em 1989.

Dino associou-se a Carlo Ponti em 1948 e, juntos, produziram o primeiro filme italiano em cores, tendo o cômico Totò como protagonista. Deve-se a Dino também um dos filmes de Roberto Rossellini (Onde Está a Liberdade?,1954) e uma das obras-primas de Mario Monicelli, A Grande Guerra, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 1959. Ano passado, o festival italiano comemorou os 50 anos dessa vitória com a cópia restaurada do filme, projetado em praça pública na presença do diretor.

Essa vasta carreira talvez seja mais lembrada pelos dois pontos luminosos deixados na parceria com Fellini. A Estrada da Vida e Noites de Ca­­bíria: em ambos brilha a estrela terna de Giulietta Masina, mulher do diretor. São duas obras-primas.

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