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Literatura 1

O húngaro Esterházy afogando em números

Escritor adorado em seu país tem um primeiro livro publicado no Brasil pela Cosac Naify, com 97 fragmentos sobre a falta de sentido das relações amorosas

Esterházy: filho de família nobre e formado em Matemática | Dan Wesker/Divulgação
Esterházy: filho de família nobre e formado em Matemática (Foto: Dan Wesker/Divulgação)

Péter Esterházy estudou Matemática. Esta é uma informação essencial se você for ler Uma Mulher, o primeiro título do autor húngaro a sair no Brasil. A ciência dos números não é tão relevante na obra de outros escritores matemáticos (o sul-africano J.M. Coetzee é um exemplo notório), mas pode elucidar um bocado da ficção elaborada por Esterházy.De família nobre (aliás, outro dado fundamental), Esterházy é adorado na Hungria. Quase um popstar, do tipo capaz de entrar numa livraria e mobilizar o público que estava ali para acompanhar o lançamento de outro escritor, que também larga tudo para cumprimentar o senhor de vasta cabeleira branca. O episódio é narrado pelo tradutor Paulo Schiller no posfácio de Uma Mulher.

No que diz respeito à forma, o livro é complicado de se definir. Não se trata exatamente de contos e o conjunto também não é um romance. São 97 fragmentos interligados que formam um todo coerente, mas não há uma linearidade nem uma narrativa que os conecte. Há, sim, frases recorrentes. Todos os textos começam com "Há uma mulher" e, em seguida, "Ela me ama" ou "Ela me odeia". Às vezes, ela ama e odeia, ama odiando ou odeia amando.

Esterházy cria dezenas de combinações e desdobramentos para o que parece ser uma mesma história (e não é). A voz do narrador é uma só e a lógica que embala os fragmentos é igualmente única: as histórias de amor têm começo e fim, e o meio entre os extremos nunca é simples. Exige tempo e esforço.

Lembra a máxima sobre como "a ordem dos fatores não altera o produto"? Esterházy pega os elementos que tem – homem, mulher, amor e ódio – e cria com eles inúmeras possibilidades. O produto é sempre um homem transformado pela relação que deu certo ou não, que durou ou não, que acabou ou não.

"Há uma mulher. Ela me ama", diz o primeiro texto. As duas frases estão também na abertura do fragmento derradeiro, de número 97, e na maioria dos outros. Não há uma conclusão nem uma amarração. Ler sobre todas as mulheres descritas por Esterházy (talvez elas sejam 97 diferentes, embora algumas se pareçam muito e é possível que sejam as mesmas) não clareia o que estava nebuloso no início do livro. Ele deixa a impressão de que há algo insano numa relação, algo doentio que não faz sentido. Não importa quantos cálculos você faça.

Mais números

Depois de Uma Mulher, a Cosac Naify se prepara para publicar Harmonias Celestes, sobre o clã Esterházy. O castelo da família abrigava estreias do compositor Haydn no século 18 e, em 1917, o avô do autor foi primeiro-ministro do império Austro-Húngaro. Seu pai era conde e foi informante da polícia ditatorial – fato abordado em outro livro, Edição Revista.

Na versão húngara, Harmonias Celestes tem 700 páginas, é dividido em duas partes e tem 571 parágrafos numerados. Por que 571? Por que uma mulher? Por que 97 fragmentos? E a resposta mais óbvia para essas perguntas é: por que não? GGG

Serviço:

Uma Mulher, de Péter Esterházy. Tradução Paulo Schiller. Cosac Naify, 184 págs., R$ 43.

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