
Luís Bueno - Ninguém estranharia a afirmação, viesse de quem viesse, de que Guimarães Rosa é o maior prosador de língua portuguesa do século 20. E há muitos motivos para que uma consideração desse tipo apesar de sempre duvidosa, sempre precária seja aceita. Afinal, o escritor cujo centenário de nascimento se comemora este ano fez o que pouca gente foi capaz de fazer, em qualquer literatura do mundo: criar um espaço próprio dentro de uma língua, com vocabulário, sintaxe, quem sabe uma morfologia, uma imagética e tudo o mais. Em duas palavras: Guimarães Rosa inventou uma língua literária.
Esse feito único do escritor mineiro tem levado a uma idolatria cega, que chega a estender a visão de que ele criou uma língua portuguesa dentro do português à idéia de que ele inventou do nada uma literatura inteira. E como toda idolatria cega, essa filha dileta do fundamentalismo, a que atinge Guimarães Rosa tem a tendência de atrapalhar muito mais do que ajudar a fixar uma imagem da grandeza do seu objeto de adoração. O que Guimarães Rosa conseguiu foi muito mais desafiador do que inventar uma literatura o que apenas o isolaria numa posição de escritor que não vem de lugar algum e para lugar nenhum vai.
Um dos problemas de se fazer ficção no Brasil é o da variedade cultural e lingüística do país. Mas essa variedade não decorre somente do tamanho do território, como se costuma pensar. As desigualdades sociais também têm um papel importante nela. Basta pensar nas diferenças da educação recebida pelos mais pobres e pela elite. Uns mantidos no analfabetismo enquanto outros podem acompanhar os últimos desdobramentos da arte ou da ciência nos grandes centros. E gente educada de maneira diferente também fala de maneira diferente. Como trazer essa diversidade para a literatura? Não se pode esquecer que o escritor brasileiro, em geral, está muito mais perto dos privilegiados que dos excluídos.
Uma das maneiras de responder a esse problema foi a de fazer as personagens pobres falarem de forma muito diferente das personagens ricas e do narrador. Enquanto o caipira típico da ficção regionalista brasileira da virada do século 19 para o 20 falava, por exemplo, "us hómi", o narrador continuava dizendo "os homens". Uma solução que folcloriza e segrega.
Na década de 1930, quando o romance floresceu como nunca entre nós, a compreensão sobre esse tipo de problema mudou, e apareceram escritores que deixaram de lado esse preconceito. Em compensação, um certo paternalismo acabou surgindo em cena. Se, por um lado, a língua do narrador incorporou a oralidade e se aproximou da fala das personagens, por outro, a simpatia acabou reduzindo a personagem pobre a uma espécie de lugar-comum da visão de uma elite ou de uma classe média. Lembre-se o idealismo da visão do pobre em alguns livros de Jorge Amado.
É nesse momento que surge um livro como Vidas Secas. Nele, não há concessões. A voz que conta a história não se julga apta a "compreender" ou "representar" suas personagens pobres. E ela, ao mesmo tempo em que domina todo o livro com sua linguagem, apresenta os pensamentos de uma gente que, embora não tenha tido a chance de apurar seus meios expressivos, pensa e sente como todo mundo.
Guimarães Rosa pertence a essa geração é mesmo mais velho que escritores como Jorge Amado ou Rachel de Queiroz. Poderia ter estreado em livro em 1939, com Sezão, uma primeira versão daquele livro que apareceria em 1946 como Sagarana. Isso só não aconteceu porque o presidente do júri do concurso Humberto de Campos de 1938, o mesmo Graciliano Ramos, deu seu voto de minerva para um outro livro, Maria Perigosa, de Luís Jardim, este sim publicado em 1939.
Esse fracasso foi, no final das contas, uma oportunidade para que Rosa depurasse seu livro e se preparasse, já conhecendo a experiência completa de Graciliano, para aquelas obras inovadoras que apareceriam a partir de 1956, com Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile.
E o que acontece nessas obras? Aquela língua nova, que vinha apenas esboçada em Sagarana, surge inteira. O problema da linguagem se resolve num outro plano, em relação com uma visão do homem, no sentido mais amplo possível, e do país, no sentido mais estrito da experiência brasileira específica. Guimarães Rosa propõe uma outra forma de razão organizadora. Rompe com o racionalismo que divide os homens em ricos e pobres, em gente que se aproxima ou se distancia da norma culta. Sem negar que essas diferenças existem, ele as equaciona de outro modo. O homem em Rosa é pobre ou rico, analfabeto ou doutor, está submetido ou submete. Mas também é um monte de outras coisas. Pode estar, por exemplo, mais distante ou mais próximo da natureza, detendo um conhecimento precioso que não depende da classe e do grau de educação formal. Além de Grande Sertão: Veredas, um conto como "O Recado do Morro" realiza essa fusão de maneira exemplar, trazendo tudo isso para o plano do tema e do próprio enredo.
É assim que ele inventa uma língua, fundindo radicalmente o linguajar mais acadêmico, contaminado da interferência do grego clássico ou da linguagem da ciência, com as formas da intuição do falante sem educação formal (que Haroldo de Campos chamaria em Galáxias de "inventa-línguas"), numa atitude quase infantil de quem está descobrindo a língua neste exato momento. O narrador e a personagem, seja ela doutor, jagunço, menino ou maluco, falam uma mesma língua, uma língua que ninguém fala a não ser nos livros de Guimarães Rosa.
Vista nesse enquadramento, sua literatura é mais do que a obra isolada de um grande escritor. É também a obra de alguém capaz de dar uma solução a um impasse artístico enorme, trazido por toda uma tradição literária. Sua língua não vem do nada, como nenhuma língua pode vir do nada. Vem da experiência cultural que temos a sorte (ou o azar) de experimentar, como brasileiros e como pessoas. Ao mesmo tempo.
Luís Bueno é professor da Universidade Federal do Paraná e autor do livro Uma História do Romance de 30 (Edusp).



