
De repente, um livro sobre jazz me colocou na estrada, participando de festivais, shows e oficinas. Lancei Improvisando Soluções O Jazz como Exemplo para Alcançar o Sucesso (Best Seller) em setembro de 2008 no Festival de Jazz de Ouro Preto.
Em outubro, o lançamento no Rio foi animado pelo trio do "casseta" Reinaldo Figueiredo, com direito a uma canja de Bernard Fines, que cantou um "Les Feuilles Mortes" inesquecível. (Conheci Bernard em Ouro Preto e fiquei maravilhado com as chansons jazzificadas do seu CD Sous le Ciel de Paris.)
Toda uma rede de novos amigos e eventos se teceu em torno do Improvisando. Em Ouro Preto, os curitibanos Luiz Alceu (Hermes Bar) e Ana Cláudia Decker (PizzaMais) me convidaram para lançar o livro em Curitiba em dezembro, no Hermes, ao som do trio de minha amiga tecladista Marília Giller. E agora, no final de julho, o Abel da Silva, que conheci através do trombonista Raul de Souza companheiro de noitadas na Curitiba de meio século atrás me chamou para lançar o Improvisando Soluções em Florianópolis, durante uma oficina do Hermeto Pascoal, e para falar sobre o tema do livro: a arte de improvisar a própria vida.
Com Hermeto e sua companheira de vida e música, Aline Morena, tive um convívio caloroso em Florianópolis e nos ermos de Curucaca, na Serra Catarinense. Reatei assim todo um passado com o Bruxo, iniciado no aeroporto do Galeão em 1979, no vôo que nos levou para a Suíça e culminou com sua triunfal apresentação no Festival de Montreux. Em 1987, Hermeto brindou nossa amizade dedicando-me a faixa "Viagem", no álbum Só Não Toca Quem Não Quer. Desta vez ele foi além e compôs para mim uma complexa partitura em 3/4, que me presenteou antes de seguirmos para São Joaquim, onde se apresentaria no Centro de Eventos, um auditório imenso e glacial com a temperatura beirando o zero, dentro e fora. Hermeto concentrou sua carreira ultimamente na dupla Chimarrão e Rapadura ele, o alagoano, e a gaúcha Aline. Para o show de São Joaquim convocou o grupo do baixista Itiberê Zwarg, com seu filho Aju na bateria; um novo tecladista, o jovem cearense Ranier, que só foi conhecer na hora; o saxofonista Vinicius Dorin e, na percussão, o filho de Hermeto, Fábio. Apesar da hipotermia de São Joaquim, o Bruxo incendiou a plateia, que se pôs a dançar no final apoteótico.
Mal refeito das curvas e alturas catarinenses, três dias depois peguei a estrada. Era outra etapa da trama tecida em torno do Improvisando Soluções: Bernard Fines, que organiza o IV Penedo Winter Jazz, me convidou para lançar o livro e participar de um debate, no último fim de semana do evento, que acontece no Jazz Village Bistro, o restaurante-bar do hotel Pequena Suécia. É um festival de jazz de formato único: ouve-se boa música degustando bons vinhos e pratos sofisticados, com nomes sonoros, criados por Marie-Louise, que leva adiante a hospitalidade de meio século da família Göransson.. Na primeira noite, ao som da guitarra de Mauro Costa Jr. e dos teclados de Marvio Ciribelli, comi Etta James: truta com champignons refogados no óleo de gergelim e shoyu, acompanhada de creme de abóbora e batatas coradas. Na noite seguinte pedi um frango Charlie Parker, coisa de connoisseurs: Parker ganhou o apelido de (Yard)bird porque era um devorador serial de galetos. Enquanto isso, o instrumento do Bird, o sax alto, soava nos dedos e no sopro de Mauro Senise, em diálogo com sua alma-irmã, o tecladista, compositor e arranjador Gilson Peranzzetta. A dupla celebrava 20 anos de uma parceria sem igual na MPB instrumental. Por falar nisso, MPB instrumental é MPB ou jazz? Esta foi a questão debatida num papo informal na manhã de domingo, entre Mauro Senise, Bernard Fines, o autor de Improvisando soluções e o engenheiro americano Karl Platt, dublê de flautista, outro que, como Bernard, não resistiu aos encantos de Penedo. Chegamos à conclusão de que o jazz, mais do que um gênero ou estilo, é uma maneira de abordar a música e pode ser feito em qualquer lugar, valendo-se da cultura local. Satisfeitos com o veredito, encaramos o almoço de despedida, no Jazz Village Bistro. O prato mais requisitado foi, de longe, o frango John Coltrane.





