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Debate

O limite entre a arte e o consumo

Ao criticar o colega Damien Hirst pela produção em escala de telas, David Hockney abriu uma interessante discussão no mundo das artes plásticas

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(Foto: Divulgação)
Damien Hirst e suas

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Damien Hirst e suas

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Hockney faz questão de dizer que suas obras, como a tela Pool with Two Figures, são feitas por ele próprio, sem assistentes |

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Hockney faz questão de dizer que suas obras, como a tela Pool with Two Figures, são feitas por ele próprio, sem assistentes

Rio de Janeiro - A briga é de cachorro grande: de um lado, o britânico David Hockney, de 74 anos, em cartaz com uma retrospectiva em Londres; do outro, o também britânico Damien Hirst, 46, cujas "spot paintings" (algo como "telas de bolinhas") que esteve recentemente em exposições em oito países ao mesmo tempo – até março, permanecem em Atenas, Genebra e Roma. Hockney mandou escrever no cartaz de sua mostra: "Todas as obras aqui foram feitas pelo próprio artista, pessoalmente." E assumiu: estava alfinetando Hirst e sua produção em escala das telas de bolinhas – das 1,4 mil disponíveis no mundo, apenas cinco foram feitas pelo próprio Hirst.

Em breve, os dois grandes nomes da arte contemporânea vão se "enfrentar" em Londres: enquanto Hockney tem sua obra revista na Royal Academy of Arts, Hirst fará, em abril, sua primeira individual num museu britânico (a Tate Modern). A briga aquece o debate sobre o que seria arte fabricada, cuja produção parece atender tão somente a uma demanda de mercado. Afinal, o que dizer da enxurrada de telas de bolinhas quase idênticas?

Crítica do The New York Times, Roberta Smith avaliou a produção e a megaexposição de Hirst como "uma descarada promoção de marketing" dele e de sua galeria, a Gagosian. E também questionou o próprio valor das telas: "Algumas são maravilhosas, outras não são sequer pinturas, são apenas extensões inertes de bolas que estão penduradas em uma galeria."

Sucesso

Ressalvas estéticas à parte, Damien Hirst é sucesso de consumo – em plena crise europeia, em 2008, por exemplo, suas obras arrecadaram R$ 200,7 milhões num leilão da Sotheby’s, que incluía seus célebres (e bizarros) animais em formol. Agora, suas repetitivas telas de bolinhas são o novo objeto de consumo de colecionadores com dinheiro de sobra.

O curador carioca Leonel Kaz, que assinou exposições como a retrospectiva de Vik Muniz no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio em 2009, ironiza: "A Escala Pantone, encontrada em boas papelarias, tem 2.886 cores. Já a escala produzida pelo Damien tem menos cores e custa centenas de vezes mais".

Para Kaz, o debate não se restringe à produção feita a muitas mãos ("As oficinas do Renascimento tinham seus titulares e seus auxiliares"). O que Hockney traz à reflexão, no entanto, "é a escala industrial do consumo de tudo e, dentro desse tudo, do consumo de arte". Kaz lembra que Hirst tem, em Londres, loja análoga à de Romero Britto em São Paulo, na qual o brasileiro comercializa seus produtos – sim, produtos, como canecas, malas, perfumes e também telas. Na loja de Hirst, as "spot paintings" são vendidas em diversos formatos. "Como se fossem bolsas Louis Vuitton, todos querem participar do desejo de consumir mais do mesmo. Com uma diferença: grande parte dos compradores de arte anda estocando obras, como se fossem títulos da bolsa, à espera da valorização. No caso das bolsas a tiracolo, estas, ao menos, são exibidas...", afirma o curador.

Vik Muniz lamenta que a discussão sobre a produção contemporânea feita como resposta ao aquecido mercado de arte venha à tona apenas por causa da recente confusão entre Hirst e Hockney. "A arte inglesa parece se nutrir demasiadamente desse clima de reality show sem graça. Um Big Brother geriátrico, que define muito mais a função e o mérito de seus participantes do que a questão da importância da mão do artista na execução da obra", diz Vik. "É óbvio que o problema também depende da disciplina; que, na pintura, a mão é muito mais importante do que na escultura ou na fotografia, que são práticas menos primitivas e que, devido à sua complexidade técnica, dependem da ajuda de outros profissionais para a sua execução", diz.

Para Vik, "o problema é quando a fabricação vira o tema principal da obra. Isso não me parece muito ambicioso como arte nem muito inovador como fonte de polêmica".

Manipulação

Beatriz Milhazes, que produz apenas dez quadros ao ano – o que mantém uma boa fila de espera por um trabalho de sua autoria –, diz que Hirst "é um artista conceitual que vem defendendo nos últimos anos, como conceito, a manipulação do mercado de arte". "Ele tem ideias, aplicadas em diversas técnicas e que não precisam ser realizadas por ele, pois se encaixam em um conceito. Seus técnicos podem produzir mil ou um milhão pois o fazer não interessa nesse conceito. Ele tem sido genial e único nesse desenvolvimento."

Milhazes diz que "a arte conceitual, infelizmente, abriu portas equivocadas para os jovens, que começam e acham que basta ter uma ideia interessante e dar para alguém produzir". O resultado, diz, são "objetos decorativos e divertidos, mas sem nenhum conteúdo".

Consagrado por fotografias em que imprime seu olhar poético único, Miguel Rio Branco conta que só entrou no mercado em 1994, embora seus trabalhos datem de muito antes. A fotografia, lembra ele, demorou para ser considerada obra de arte. Hoje, afirma, "a divulgação e a venda soam tão importantes quanto a realização" dos trabalhos. "Me parece uma questão compulsiva ter obras e mais obras em diferentes lugares ao mesmo tempo. Não faço questão de ser distribuído pelo mundo, acho egocêntrico. Cinquenta mil telas de bolinhas? Uma já é chato demais! A questão é: o que é arte? Você tem 50 pessoas fazendo e 50 marchands vendendo pelo mundo. O que Hirst faz é uma invasão. Tenho pena das pessoas que compram."

Com a carreira dedicada sobretudo à escultura, Angelo Venosa costuma contar com a ajuda de assistentes para criar trabalhos em grandes proporções e que, muitas vezes, exigem conhecimentos técnicos específicos. "Embora deteste o Damien Hirst, acho que Hockney toca num ponto tolo (o do uso de assistentes). O que me incomoda em Hirst é a maneira como ele lida com o sistema, essa constante afronta com o mercado. A questão da comercialização passa a ser mais importante do que a obra em si."

Sem poesia

Com importantes mostras no currículo – ele participou da Manifesta7, na, Itália, da 25.ª Bienal Internacional de São Paulo, da 1.ª e da 5.ª bienais do Mercosul, em Porto Alegre, da 4.ª Bienal de Havana, em Cuba, e da 3.ª Bienal de Lulea, na Suécia –, Marcos Chaves defende que o centro do debate também está longe de ser o do uso de assistentes, comum nas artes visuais ("O assistente é um bom contraponto, o artista é muito solitário").

"O problema são as centenas de telas de bolinhas, sabe? É uma coisa muito mercadológica. É como se ele dissesse: ‘É isso o que vocês querem? Então, tomem!’ O que me preocupa é o cinismo na arte, que corrói o amor e corrói a poesia", avalia Chaves.

O catálogo da Bienal de Veneza do ano passado parecia antever a discussão que ganhou força agora. Nele, o crítico francês Marc Fumaroli fazia ressalvas ao consumismo que cerca a arte conceitual contemporânea. Para ele, há artistas supervalorizados, como uma "marca inventada por um mercado financeiro internacional", cotados como se estivessem na Bolsa de Valores. Mas o que produzem não teria mais relação com o que se convencionou chamar de arte. E essa lógica atual excluiria artistas vivos realmente autênticos.

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