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O mentiroso por inteiro

Edição especial de As Aventuras de Pinóquio, que começa a ser vendida hoje, resgata trama original italiana, escrita no século 19

O ilustrador brasileiro Alex Cerveny utilizou a técnica cliché verre para elaborar as 60 ilustrações para Pinóquio. A capa dura teve impressão em hot stamping (sistema semelhante à tipografia), e o livro vem embalado em uma luva | Reprodução/Alex Cerveny
O ilustrador brasileiro Alex Cerveny utilizou a técnica cliché verre para elaborar as 60 ilustrações para Pinóquio. A capa dura teve impressão em hot stamping (sistema semelhante à tipografia), e o livro vem embalado em uma luva (Foto: Reprodução/Alex Cerveny)

A história de Pinóquio, o boneco de madeira que sonhava em ser um menino de verdade, habita, há mais de um século, o imaginário infantil. Escrita de forma seriada por Carlo Collodi em 1881, cujos curtos capítulos foram publicados no " Il Giornale per i Bambini", primeiro periódico italiano voltado para o público infantil, a trama, com o passar dos anos, acabou tornando-se pasteurizada por conta das diversas adaptações e da transformação em filme pela Disney. Mesmo assim, sobreviveu às mudanças de gostos e chegou a vários cantos do planeta. Agora, o texto integral pode ser redescoberto pelos leitores em As Aventuras de Pinóquio: História de um Boneco, editado pela Cosac Naify, que chega hoje às livrarias, em uma edição especial e limitada, de 3,5 mil exemplares.

O fascínio do personagem é ressaltado por diversos escritores, entre eles, Ítalo Calvino, que, no posfácio inédito escrito para a edição brasileira do livro, comenta que Pinóquio é um belo modelo de narrativa de aventura, e que deveria ser estudado por todos os escritores italianos. Ponto ressaltado também pelo tradutor Ivo Barroso (que já traduziu Calvino, T.S. Eliot e Shakespeare). "O estilo de Collodi é excepcional, de uma rapidez e movimentação incríveis. Não tem meia página em que não aconteça algo, é um livro dinâmico."

A saga do boneco que percorre lugares fascinantes, é zombado na escola, rouba dinheiro e, ao mesmo tempo, se diverte muito no País dos Folguedos, é algo que, segundo Ivo Barroso, não agrada apenas a crianças e jovens. "Transcende a literatura infantil. A linguagem é comum, ele não usa termos rebuscados ou expressões difíceis, mas o ritmo e a ironia de cada frase contribuem para torná-la uma obra-prima."

O próprio tradutor não conhecia o texto original antes do trabalho. Ficou tão fascinado que deixou todos os projetos de lado e fez a tradução em apenas dois meses. "É um clássico da literatura italiana, que precisava e merecia ser traduzido com todo o respeito", diz. O desafio, segundo Barroso, foi não cair no caminho fácil de modernizar a linguagem e fazer Pinóquio falar como um garoto brasileiro do século 21, nem mudar palavras mais difíceis. "No contexto da história, alguns termos se explicam, e a criança vai entender. Todas as palavras foram pensadas e repensadas, mantendo o ritmo clássico."

Barroso cita algumas diferenças consideráveis entre o texto de Collodi com outras adaptações: o grilo falante, que tem uma presença central no filme da Disney, não passa de um personagem terciário no livro, que é, inclusive, esmagado por Pinóquio. A personalidade ambígua do boneco, característica um tanto velada em algumas versões, aqui é exposta, com o forte desvio de conduta do menino. "Ao contrário de apresentar o menino bonzinho, o livro traz um menino péssimo, que acaba dando a volta por cima quando cai em si. E isso é um excelente exemplo para a criançada de hoje", acredita o tradutor.

Projeto gráfico

Outro destaque são as ilustrações do artista Alex Cerveny, que se debruçou por meses na feitura das 60 imagens, todas realizadas com uma técnica chamada cliché verre, do final do século 19, ou seja, contemporânea ao livro. Cerveny chamuscou placas de vidro com uma vela, tornando-a opaca com a fuligem. Em seguida, desenhou sobre a superfície com uma agulha, resultando no negativo do desenho, que foi impresso como fotografia. O resultado foi uma série de imagens douradas, que criaram uma espécie de focos de luz nas páginas em fundo marrom.

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