A obra de Valêncio Xavier foi duplamente lembrada este ano no teatro paranaense que pouco se serve dos escritores locais, à exceção de Dalton Trevisan e, recentemente, de Manoel Carlos Karam.
O Mez da Grippe, publicado em 1998 pela Companhia das Letras, inspirou dois espetáculos montados pela Pausa Companhia, em experiências com diferentes diretores. A mais bem-sucedida foi Febre Um Sintoma Cênico, sob o comando de Fernando Kinas, encenada em maio no Espaço Dois, um casarão adaptada para o teatro que foi habitado em 1919, em plena epidemia da gripe espanhola em Curitiba, da qual trata o livro de Xavier.
Sem usar as mesmas palavras escritas pelo autor, a peça emprestava da obra sua estrutura complexa de colagens de gravuras, peças publicitárias e reportagens e manchetes jornalísticas. Abarrotada de referências, a encenação tinha como linha temática a memória e, conseqüentemente, o esquecimento. Uma provocação emergia: estaríamos dispostos a trocar o passado por um punhado de futuro em branco?
Em um jogo que incluía cenas de improvisação e interação com a platéia, o grupo distribuía críticas à atual situação sócio-política mundial e provocava nos espectadores uma reação que caracteriza nossa geração: a falta de reação.
Em agosto, foi a vez de o Teatro Novelas Curitibanas receber para uma temporada de um mês os atores da Pausa Companhia e outros convidados, dirigidos agora por Moacir Chavez, para a peça O Mez da Grippe, que começava com o texto do livro homônimo de Valêncio Xavier, costurado a um poema de Santo Agostinho e à obra dramatúrgica As Relações Naturais, do gaúcho Joaquim Qorpo-Santo. O foco então se voltou para a questão da repressão e da liberdade sexual, com o ator Gabriel Gorosito a relatar em primeira pessoa um estupro, com palavras esvaziadas de sentimento, e o elenco recriando, pelo trabalho com a voz, as senhoras curitibanas da época em que a Gripe Espanhola era a grande carrasca.



