
Aos 73 anos, Jorge Mautner deve ser o mais otimista dos intelectuais brasileiros. O músico e escritor esteve na semana passada em Curitiba para fazer dois shows e dar uma palestra no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc).
O tema escolhido para sua fala foi A Música e as Cidades e, ao final, Mautner tentou resumir qual a música que emana de Curitiba. "São muitas, são todas as músicas do mundo. É a canção sertaneja, as valsas vienenses, uma letra do Paulo Leminski, os tambores dos terreiros, a voz da Thaís Gullin...", disse.
Durante a palestra, e depois, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Mautner fez o que sabe melhor: misturou história, mitologia de religiões de todos os continentes, erudição em temas de filosofia e política com bom humor para validar sua teoria que eleva o Brasil como "a única esperança da sobrevivência da humanidade".
"Como dizia [o político abolicionista] José Bonifácio (1763-1838), diferente dos outros povos e culturas, somos a amálgama. Nossa originalidade no mundo é absoluta. O filósofo francês Jacques Maritain (1882-1973) disse acreditar que o único lugar onde a justiça e a liberdade poderão aflorar juntas é o Brasil. Somos o país do futuro e o futuro já chegou", profetiza.
Mautner cita o cardápio eleitoral da eleição presidencial do próximo mês como prova da fertilidade democrática da mistura brasileira: "Temos Aécio Neves, herdeiro da tradição política mineira que ajudou a formatar o país. Temos Marina Silva, que veio da floresta com a mensagem de Jesus de Nazaré, e também Dilma Roussef, a guerrilheira da democracia. Ao contrário do que muitos dizem, estamos muito bem servidos", avalia.
Relançamentos
No campo literário, o escritor comemora o fato de que seus três primeiros livros Deus da Chuva e da Morte (1962), que escreveu aos 15 anos, Kaos (1964) e Narciso em Tarde Cinza (1966), que formam a trilogia conhecida como Mitologia do Kaos , devem ser reeditados ainda neste ano.
Na seara musical, o compositor celebra o relançamento, pela gravadora Universal, da caixa Três Tons de Jorge Mautner, com os três primeiros discos do músico e a descoberta pelo pesquisador Marcelo Fróes de uma gravação em excelente estado de um show no Teatro Opinião (Rio de Janeiro), com seis músicas inéditas de que Mautner nem se lembrar mais.
Relançamentos que tem motivado uma série de shows pelo país, em que o artista se apresenta com uma grande banda, talvez para amenizar a ausência do parceiro Nélson Jacobina, falecido em 2012. "A ausência dele é muito forte, mas sua presença também", afirmou.



