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Literatura

O pior inimigo

O escritor francês Stéphane Audeguy publica Filho Único, romance sobre o desconhecido irmão do filósofo Jean-Jacques Rousseau

Stéphane Audeguy, em recente passagem pelo Brasil, atacou o presidente da França: “O Sarkozy tem orgulho de ser inculto” | J. Egberto / Divulgação
Stéphane Audeguy, em recente passagem pelo Brasil, atacou o presidente da França: “O Sarkozy tem orgulho de ser inculto” (Foto: J. Egberto / Divulgação)

O filósofo, escritor e teórico suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) se refere a seu irmão, François, apenas três vezes, na famosa obra Confissões. Esse detalhe, omissão e mesmo ausência incendiou o imaginário do escritor francês Stéphane Audeguy, de 44 anos. A partir da lacuna e, sobretudo, incluindo 21 anos de leituras diretas e indiretas sobre o século 18, Audeguy escreveu – em seis meses – Filho Único, romance que inventa e dá espessura ao irmão de Rousseau.

"Rousseau fala pouco e, principalmente, mal do seu irmão", disse Audeguy, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, durante a 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que aconteceu de 14 a 24 de agosto, no Pavilhão do Anhembi. "A leitura das suas Confissões me ensinou ao menos isto: convém desconfiar das próprias lembranças quando se remetem às idades mais tenras. Porque as famílias se parecem com os povos: mentem como respiram", diz um fragmento de Filho Único, com a voz narrativa do personagem François Rousseau, referindo-se ao irmão que se tornou famoso.

Audeguy explica que, em seu romance, François (também) é o inimigo do que a História fez de Jean-Jacques: uma das figuras marcantes do Iluminismo francês. "Em meu livro, François acaba compreendendo o irmão, apesar de ser seu adversário." Em Filho Único, rancor, ódio e raiva são alguns dos "laços" entre os irmãos, sobretudo do ponto de vista de François. "O irmão é o melhor inimigo".

Libertino

François nasceu em 1705 e desde criança demonstrou interesse pela vida nas ruas de Genebra, na Suíça. Aos 10 anos – depois da morte da mãe, Suzanne, e com o pai, Isaac, a destinar toda a atenção possível ao pequeno Jean-Jacques –, o primogênito passa a conviver com libertinos e apreciá-los. Migra para Paris, trabalha em bordéis e até convive com o Marquês de Sade. Devido à conduta do irmão, Jean-Jacques se torna o "filho único", ao qual o título do romance – ironicamente – faz referência. Audeguy procura revelar esse sujeito oculto, eclipsado,consciente e voluntariamente, por Jean-Jacques.

"Gosto de pensar, Jean-Jacques, que, contrariamente a todos os patetas que se dizem hoje seus discípulos, você não se faria de difícil diante do tema dos meus trabalhos. Traidores que se valem de você, e que pretendem conhecer o Homem em toda a verdade da sua natureza, fizeram dele um fantasma pálido, exangue, sem carne e sem paixões múltiplas." Este é um dos momentos mais intensos – e simbólicos – do romance de Andeguy.

Ontem é hoje

O escritor francês salienta que, após escrever Filho Único, se deu conta das similaridades entre a época de Rousseau e o tempo presente. "Estou preocupado com as transformações das pseudodemocracrias em sociedades totalitárias, que visam apenas a criar gado humano." Na opinião do escritor, assim já era na época da Revolução Francesa e o mesmo se dá na contemporaneidade.

"O presidente da França, Nicolas Sarkozy, é um sintoma da pseudodemocracia autoritária e perigosa." Audeguy carimba Sarkozy: "Ele tem orgulho de ser incluto." Para o escritor francês, o antídoto do totalitarismo que fermenta na Europa tem um nome: Brasil. "Um dos locais mais vivos do mundo, complexo e indecifrável. Nada a ver com a Disneylândia trash que é a França da Era Sarkozy."

Serviço

Filho Único. Stéphane Audeguy. Record. 237 págs. R$ 22,90.

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"Eis as coisas tais como aconteceram. Em primeiro lugar, é preciso dizer uma palavra sobre as circunstâncias da minha perversidade: sempre fui para os Rousseau o Sujeito Mau; por sua vez, Jean-Jacques, você cumpria com entusiasmo seu papel de Criança Virtuosa. No passado, eu tinha sido recriminado por algumas travessuras e alguns pequenos furtos que você tinha cometido: e você não tivera o cuidado de se denunciar. (...)

Com freqüência, a miséria, a imbecilidade dos jacobinos e a própria caridade me cansavam. Trabalhava cada vez menos, e pus-me novamente a percorrer a noite de Paris. Ela também havia mudado. A libertinagem tinha perdido esse ar de alegria que ganhara depois da revolução. A abundância de pobres era desencorajadora; a penúria levava alguns a berrar canções, outros a arranhar violões desafinados."

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Trecho de Filho Único, romance de Stéphane Audeguy

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