
A voz rouca que atende ao telefone é a mesma que se ouve na novela, a diferença é no tom. Adriana Birolli, atriz curitibana que vem roubando a cena com sua Isabel em Viver a Vida, tem a fala doce e um riso frouxo de quem está feliz com os rumos que a vida tem seguido. Há cerca de dois anos, trocou Curitiba pelo Rio de Janeiro, deu um tempo no teatro e se dedicou à televisão. O investimento valeu a pena: Adriana é um dos trunfos do folhetim, na pele de uma vilã cuja maior maldade é falar a verdade sem pensar nas consequências.No mundo das artes, sua primeira paixão foi o palco. "Acho que o teatro tem um bicho que te pega e, quando é para ser, acontece. É um prazer muito grande subir no palco, interpretar e poder ver as pessoas", diz. A mudança para a tevê aconteceu de uma forma natural na carreira de Adriana. "No teatro, você trabalha o personagem do início ao fim, mas a novela é uma obra aberta. No dia a dia, a gente vai montando", comenta. A estreia na televisão, direto no horário nobre, não poderia ser melhor. Dando vida a uma desbocada Isabel, a atriz vem conquistando o público com suas tiradas que mesclam humor e cinismo. "O público acaba gostando mais do personagem vilanesco, errado. É como se ele botasse para fora aquilo que não fazemos na vida real", pondera. Adriana não defende sua personagem cegamente. "Eu tenho de acreditar no que faço e a Isabel é um instrumento do autor para falar a verdade", argumenta.As alfinetadas de Isabel mexem com as estruturas da família. "A partir do momento que ela fala a verdade, desestabiliza quem ouve, mas faz crescer. A família não é perfeita. Tem um pai que traiu a mãe a vida inteira, uma filha que é claramente preferida e a que é adotada se sente agradecida por estar ali, quando deveria ser igual",diz. Para Adriana, um exemplo é quando Isabel conversa com a mãe, Tereza (Lilia Cabral), falando para ela seguir a vida e parar de pensar no novo casamento do ex-marido com a Helena da vez (Taís Araújo). "Esse tipo de conversa não é só para apunhalar. Ela fala porque é verdade", acredita.
Apesar das maldades de Isabel, Adriana ainda não levou nenhum peteleco do público na rua. "Quando me param na rua, falam que eu estou muito malvada, mas acho que, se eles sentem raiva, é porque gostam do meu trabalho", argumenta. Enquanto muitos consideram Isabel uma chata ao cubo, grande parte do público chega até a especular quais serão as próximas tiradas da personagem. "Eu já estava muito feliz por ter conseguido o papel e, quando recebia os primeiros capítulos, eu achava tudo tão genial, gostoso de criar, que nunca fiquei ansiosa pensando no que viria. O que eu receber, vou fazer. O Maneco [Manoel Carlos, autor da novela] é maravilhoso e eu estou de coração aberto para a Isabel", revela.
No entanto, uma coisa a atriz garante: o público pode sempre esperar a honestidade ferrenha de Isabel, que faz parte do caráter dela e não irá mudar. "Nós somos o que somos, melhoramos, reconhecemos defeitos, mas o que a gente é, no fundo, não muda. Ela não vê problema em ser como ela é, porque foi a maneira que ela encontrou para sobreviver nessa família", pondera.
Se depender de Adriana, a aventura televisiva está apenas começando, mas também há espaço para se arriscar e voltar aos palcos por teatros Brasil afora. "Recebi alguns convites para fazer cinema, sem datas definidas, e estou vendo como vou fazer", conta. Ela não esconde de ninguém a vontade de levar o espetáculo Manual Prático da Mulher Desesperada (texto de Dorothy Parker e direção de Ruiz Bellenda) para os palcos cariocas. Foi essa a peça que deu maior projeção para Adriana, vencedora do prêmio Gralha Azul de melhor atriz em 2007 pela interpretação de uma mulher solitária.
Cidade natal
"Amo Curitiba. É minha terra, onde cresci e passei a infância inteira", resume Adriana, sobre sua cidade natal. Para ela, na capital paranaense tudo funciona. "O Rio é mais caótico, mas é gostoso. As coisas acabam fluindo e tudo acontece o tempo todo", explica. A maior saudade é da família e dos amigos, que ficaram aqui. "A vantagem é que eles podem me ver todo dia e matar as saudades. Eu é que não consigo ir muito para lá e sinto falta deles",diz. A última visita de Adriana foi nos feriados de fim de ano. "Acho que sentiria alguma diferença indo agora para Curitiba. As pessoas são mais reservadas aí."
Mesmo sem pensar em voltar a morar na cidade, Adriana não tira sua terra do roteiro para suas futuras peças. "Aí eu não conseguia ficar muito tempo em cartaz, mas quando eu tiver uma montagem nova, sem dúvida, irei. As pessoas sempre estiveram ao meu lado e eu também sou muito grata a elas", diz.




