
No olimpo formado pelas obras de jornalistas que se dedicaram a esmiuçar a maior banda de rock do mundo, três livros têm morada. A Vida dos Beatles, do britânico Hunter Davies, foi publicada em 1968, auge da carreira do quarteto. A única biografia "autorizada" sobre os músicos teve a colaboração dos próprios, o que confere uma veracidade indubitável. Mas a obra pecou ao encerrar a história antes que ela tivesse realmente acabado.
Já Phillip Norman, em Shout!, elegeu como ponto final a morte de John Lennon, em 1980. O livro foi publicado um ano depois, e focou a narrativa em um curto período de tempo, dando mais atenção aos fatos isolados que fizeram os Beatles explodir como entidade do que à análise desses ocorridos. O norte-americano Bob Spitz foi o último a traçar a vida dos Fab Four em uma extensa compilação quando escreveu The Beatles: A Biografia, lançado em 2005. Spitz se ateve aos bastidores misteriosos do grupo, mas, preguiçosamente, revisitou fontes de Norman, conferindo à obra um caráter de déjà vu.
Quem estica os laços da história do grupo britânico, em muitos sentidos, é o jornalista e músico norte-americano Jonathan Gould, com Cant Buy Me Love Os Beatles, A Grã-Bretanha e os Estados Unidos, lançado no Brasil pela Larousse.
A amplitude que Gould alcança é amedrontadora, mas coça a mão dos que dão aos Beatles uma importância inigualável na história da música e das indústrias fonográfica e cultural. O jornalista parte em três frentes: a biográfica, a histórica e a musical.
As biografias, e aí Gould ganha muitos pontos em relação aos concorrentes, são tratadas de forma unificada. A história é sobre os Beatles, e não sobre o ácido John, o boa-praça Paul, o bonachão Ringo ou o sensível George. Da forma como é contada, ela desafia a individualização dos quatro, direcionando os comentários e entrevistas mais para as qualidades que os aproximavam do que para as características que os distinguiam.
O subtítulo do livro refere-se às relações anglo-americanas depois da Segunda Guerra Mundial, o que explica a negação do "britanismo" dos Beatles. A primeira banda de superstars se identificou, logicamente, com a nação capitalista símbolo de liberdade, os EUA, e não com as demandas tradicionais da Rainha.
A obra já teria seu valor se parasse por aí, mas o que é mais tocante é a capacidade de Gould de analisar as músicas e ele, incansavelmente e com dedicação platônica, faz isso faixa a faixa, álbum a álbum.
Baterista, Gould vai a fundo tanto em questões técnicas quanto em projeções quase oníricas que sugere a cada instrumento, tocado por cada Beatle. As composições, então, tornam-se reflexos momentâneos de um momento específico vivido novamente , não por quatro instrumentistas, mas por um grupo de músicos. Assim, o baixo de Paul em "Im Only Sleeping", presente no disco Revolver, "entra no espaço até então vazio entre a estrofe e a segunda parte, onde o torpor é penetrado pela sonoridade abafada e insistente; depois, John preenche este mesmo espaço com um bocejo histriônico e desimpedido". Dotado mais de referências musicais e conhecimento sedimentado do que de uma prosa virtuosa, Gould nos faz entrar em cada música por isso é altamente recomendado ler o livro com a discografia dos Beatles ao alcance.
O estudioso, ao observar seu objeto à distância segura, tem a pachorra de criticar negativamente canções ou pedaço delas. Ao analisar "Got to Get You Into My Life", diz que a música "fracassa" ao combinar de maneira incerta muitos trompetes e poucos saxofones, estes tocados de maneira dura por um grupo chamado Sounds Incorporated.
Há ainda espaço para aprofundamentos específicos e inéditos, como os experimentados quando o jornalista escreve sobre a faixa "And Your Bird Can Sing", também de Revolver. Segundo Gould, a música foi inspirada no histórico perfil de Frank Sinatra assinado pelo jornalista norte-americano Gay Talese e publicado na edição de abril de 1966 da revista Esquire. "Pássaro é uma das palavras favoritas de Sinatra", escreveu Talese.
De maneira convincente, Gould finaliza o livro apresentando de maneira quase didática os meandros financeiros que catalisaram o fim da banda: a relação autofágica da EMI com os músicos, a criação da Apple, a morte do empresário Brian Epstein. Um trabalho completo que consegue ser inovador mesmo ao tratar de um tema já universal. São 752 páginas. Mas, escritas da mesma maneira, poderiam ser o dobro e mesmo assim teríamos a sensação de que elas seriam insuficientes. GGGG
Serviço
Cant Buy Me Love Os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Jonathan Gould. Larousse. 752 págs. R$ 99.




