
A nova dramaturgia brasileira é universal, a julgar pela escolha de Samir Yazbek por parte do National Theatre, de Londres, para escrever uma história a ser montada no teatro, cujo primeiro diretor foi o ator Laurence Olivier (1907-1989). Em junho, Yazbek foi o primeiro brasileiro a ter uma obra encenada no local.
Selecionado entre vários autores nacionais, o descendente de libaneses escreveu O Ritual, peça em que jovens se envolvem numa trama que poderia se passar em qualquer lugar e época. Por influência de um líder carismático, o grupo de adolescentes decide criar uma espécie de confraria baseada num ritual. "É algo que os encoraja a viver melhor. Proporciona uma sensação de bem-estar e independência", contou o autor à Gazeta do Povo.
Estranhamente, eles definem como condição para a existência do grupo que ninguém se deixe envolver afetivamente. Em encontros e desencontros, essa e outras contingências vão surtindo efeitos não esperados. Motivações escusas e fragilidades vêm à tona, e o que prometia fornecer a noção de pertencimento, tão necessária à juventude, acaba trazendo problemas ainda maiores e descarrilando o projeto rumo à tragédia.
A opção por um tema não regionalista rejeitando referências estritamente brasileiras ou até paulistanas foi consciente por parte desse dramaturgo, para quem o mais importante é a linguagem. "O resultado ficou muito bem montado, pude ver as pessoas se identificando", relembra.
Um dos fatores que o impressionaram foi a qualidade da produção da versão em inglês, durante a qual ele foi chamado a Londres para os últimos ajustes.
Linguagem
Pouco realista, o texto de Samir não desvenda mistérios nem explica o comportamento dos personagens. "A peça é uma tentativa de mostrar a crueza do jovem contemporâneo urbano", diz.
Em outra experiência, ele se debruçou sobre seu passado, na figura de uma família libanesa que investiga suas origens em meio à construção da Transamazônica. O texto de Folhas do Cedro, que venceu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 2010, foi lançado pela editora Terceiro Nome e está disponível nas grandes livrarias nacionais, com fotos de Fernando Stankuns e apresentação de Jefferson Del Rios.
Samir descreve sua dramaturgia como uma "tentativa de reaproximar alguns assuntos ancestrais do homem com um olhar contemporâneo." A temática esteve em Fogo Fátuo, em cartaz no primeiro semestre, em São Paulo, mas sem previsão de apresentações em Curitiba.
"Meu teatro foge do realismo e do naturalismo. Tem mais a ver com a busca por uma linguagem e pela interpretação poética. O mais importante é a construção da dramaturgia." O Ritual também está sendo montado com um grupo de jovens atores da Escola Superior de Artes Célia Helena e do Teatro Escola Célia Helena, em São Paulo, para estreia em novembro.
O próximo projeto do escritor caminha pela linha tênue entre o mito e o humano, numa releitura de Frankenstein, com direção de Samir e atuação de Hélio Cícero. "Queremos entender a onipresença da imagem e da beleza como algo necessário, e os conflitos que isso traz."



