Para os fanáticos por música pop, 2007 começou faz tempo. Alguns dos álbuns mais esperados do início da temporada circulam pela internet há meses, no que se convencionou chamar de "vazamento". Os novos CDs de Air e Bloc Party já dão sopa na rede desde o fim do ano passado (leia quadro). A estréia de The Good, the Bad and the Queen, mais um projeto paralelo do cantor Damon Albarn (Blur, Gorillaz), também. E o que era sabotagem industrial virou uma estratégia fundamental para fisgar os ouvintes da geração anos 2000.
Os primeiros casos clássicos de vazamento de álbuns inteiros ocorreram no início desta década. Em 2002, por exemplo, a banda britânica Oasis e o rapper americano Eminem viram os discos Heathen Chemistry e The Eminem Show caírem na internet pelo menos três meses antes da data prevista de lançamento. Manifestaram-se publicamente contra a "pirataria", mas os fãs não deram bola. Resultado: suas respectivas gravadoras decidiram antecipar a chegada dos CDs às lojas.
Outros casos do gênero passaram a pipocar aqui e ali, alguns deles com peculiaridades. Hail to the Thief (2003), do grupo inglês Radiohead, vazou sem a mixagem final. No mesmo ano, as canções de Ventura, dos cariocas do Los Hermanos, chegaram antes à rede graças a um ensaio "vazado" por alguém próximo à banda. Inicialmente ofendidos, os artistas acabaram se mostrando lisonjeados pelo interesse dos internautas, principalmente após a boa repercussão do material na imprensa.
Como se vê, nem sempre é possível reconhecer logo de cara se um disco que vazou é oficial. Um exemplo curioso de dúvida é Human After All (2005), do duo eletrônico francês Daft Punk. Quando as faixas do álbum chegaram à rede, houve quem acreditasse que se tratavam de prévias das músicas definitivas. Afinal, cada tema se restringia a uma idéia central, repetida exaustivamente. E não é que o disco era assim mesmo?
No fim do ano passado, esse impasse entre "oficial" e "rascunho" fez com que muita gente jurasse de pé junto que tinha em mãos o primeiro álbum-solo de Karen O, vocalista do grupo novaiorquino Yeah Yeah Yeahs (atração da última edição curitibana do TIM Festival). Lego engano. O que se ouviu por aí foram apenas esboços produzidos pela cantora em parceria com David Sitek, guitarrista do TV on the Radio. O culpado pelo vazamento? O próprio Sitek, que se mudou e esqueceu no antigo apartamento um CD com as músicas todas devidamente espalhadas na rede pelo novo inquilino.
Há, ainda, um caso raro de vazamento por "vingança". E da parte do próprio artista. Em 2001, a banda americana Wilco teve o CD Yankee Foxtrot Hotel recusado por sua gravadora, que considerou o material comercialmente inviável. Revoltados, os músicos colocaram o disco na internet e, em pouco tempo, ele virou cult entre os fãs. No ano seguinte, assinaram com um selo independente e finalmente lançaram o trabalho de forma oficial. Mais de 500 mil cópias foram vendidas só nos Estados Unidos.
Por falar em vendas, a Associação da Indústria Fonográfica dos EUA alerta que o mercado de CDs encolheu cerca de 25% entre 1999 e 2005. O motivos dessa redução são muitos: da pirataria praticada pelos camelôs à popularização dos videogames, passando pela troca ilegal de músicas pela internet (no caso de arquivos protegidos por direitos autorais).
Isso explica porque algumas megabandas ainda se posicionam contra o fluxo livre de MP3. Como o Red Hot Chili Peppers, cujos músicos afirmaram ter ficado "tristes" ao saber que o álbum Stadium Arcadium (2006) era hit virtual antes mesmo de ter capa. Ainda assim, o CD foi um dos mais vendidos do ano no mundo inteiro, provando que o vazamento não é necessariamente ruim. Para os medalhões, claro, porque entre os novatos e alternativos a divulgação prévia na rede se tornou uma poderosa ferramenta de marketing.
Nomes recentes como Strokes, Libertines, Franz Ferdinand, Arctic Monkeys e Kaiser Chiefs só ganharam as ruas graças à internet, hoje o melhor cartão de visitas para os emergentes. Chegaram às gravadoras já aprovados pelo público, que cada vez mais consome música como um serviço disponível na internet. Acrescente-se a isso o fato de que o grosso da receita de um artista vem dos shows e pronto: está desenhado o cenário dos próximos anos. E não adianta as gravadoras tentarem, de forma ridícula, processar garotos de 20 e poucos anos que baixam MP3 aos quilos. Quanto mais isso acontecer, mais elas serão vistas como vilãs da história.
Só falta a indústria descobrir uma forma de lucrar, efetivamente, com o comércio online de música. Mas esse não é um problema dos ouvintes, certo?



