A roda de choro ainda estava começando, no aquecimento, com uma música ou outra para desembaraçar os dedos. No canto, um garotinho dedilhava o violino, tocando como se fosse bandolim, fazendo um discreto acompanhamento. Até que alguém sugeriu:
- Por que você não toca o violino com o arco?
Aos sete anos, Matheus Garcia atendeu ao pedido. E tocou tão bem que todos ficaram impressionados. Já havia nele, de forma ainda incipiente, qualidades marcantes para a pouca idade: o fraseado e a afinação bem definidos, fazendo o violino cantar como um verdadeiro solista.
Estava claro, desde então, que o violino não era apenas uma brincadeira cultivada desde os quatro anos de idade. Tanto que, com os anos, Matheus acumulou prêmios importantes. O principal é recente: o violinista recebeu uma bolsa para estudar na Universidade do Missouri, em Columbia, com a violinista Eva Szekely. O prêmio é importante porque, há alguns anos, não era concedido não havia músicos inscritos bons o suficiente. Neste ano, porém, Matheus foi contemplado, além de uma instrumentista coreana. Ele embarca na próxima segunda para um bacharelado que deve durar entre quatro ou cinco anos.
A bolsa veio em boa hora. Com 17 anos, Matheus estava cursando Engenharia Elétrica e, se nada acontecesse na carreira musical, a música poderia ser rebaixada para um segundo plano.
"O mais importante é a minha professora de violino [Eva Szekely]. Se fosse uma universidade como a de Moscou, o professor de violino tentaria reformar você. Essa professora é bem ao meu estilo e ao estilo de meu professor [Evgueni Ratchev]", destaca.
Eva Szekely já esteve no Festival de Música de Londrina há alguns anos, e Matheus assistiu às aulas como ouvinte. Há 12 anos ele estuda com Evgueni Ratchev, maestro e spalla da Orquestra Sinfônica da UEL e da Orquestra de Câmara Solistas de Londrina.
Matheus Garcia tem berço musical. Sua mãe, Luciana Gastaldi, é pianista e já gravou com o bandolinista carioca Joel Nascimento que se tornou amigo da família.
Evgueni Ratchev preparou Matheus para interpretar obras complexas de Bach, Lalo e Mozart. De Lalo, estudou a Sinfonia Espanhola, peça bastante conhecida do compositor francês. Com Mozart, há uma empatia natural: "Gosto do estilo dele, é meio festa". Com Bach, deu-se uma descoberta com a Chaconne para violino: "Eu me interessei bem mais depois que estudei essa peça, achei fantástica."
Mas não é só a música erudita que atrai Matheus. Ele participa de shows do grupo Terra Celta, de música celta, continua apaixonado por choro e ainda empunha o contrabaixo na banda instrumental Eletroímãs Catalíticos. Para Matheus, a mistura é benéfica, pois lhe dá cancha para tocar de tudo um pouco. Levar o suingue brasileiro para a linguagem do violino é o que ele mais deseja: "Pretendo misturar as coisas mesmo".
Churrasco, futebol, muay-thai violino de sete cordas e muita música
Quem vê os dedos precisos acertando milimetricamente as notas do pequeno braço do violino não imagina, por exemplo, que Matheus Garcia é praticante de muay-thai, uma luta que transforma as mãos em armas. Para evitar lesões sérias, Matheus não compete. "A gente faz mais um treino físico, luta quase não faço". Antes, Matheus jogava futebol suíço e revela uma tendência a torcer para o São Paulo.
Uma das preocupações sobre a viagem aos Estados Unidos é de ordem gastronômica. Matheus adora churrasco e, como se sabe, a carne por lá é cara e se apresenta principalmente sob a forma de hambúrgueres.
Mas a conversa se desvia por pouco tempo da música. Ele passa a falar com empolgação do violino de sete cordas que comprou de um luthier curitibano. O instrumento tem um grave ainda mais profundo que o do violoncelo, e Matheus vem estudando para fazer as baixarias do violão de sete cordas no choro. Não é só. Outro dia, no Colégio Mãe de Deus, tocou no violino de sete um dos prelúdios de Bach para violoncelo. "O instrumento é elétrico e tem infinitas possibilidades."
A aquisição é um passo a mais para misturar suas referências. Afinal, Matheus Garcia não é muito chegado às formalidades da música erudita, mesmo gostando do gênero. "No tempo de Mozart a música era para entreter. Eu gosto muito dessa função de entreter".
Mozart, porém, enfrentou uma vida dura de viagens como menino-prodígio, sina que Matheus Garcia se livrou ao tratar a música sem estoicismo. "Tem dia que eu fico cinco horas estudando e tem dia que passa batido. Tem gente que fica o dia inteiro estudando, mas vai chegar uma hora que não adianta mais nada", ressalta. Por isso, Matheus prefere seguir um ritmo próprio, sem grande obsessão. Uma estratégia que, até agora, só deu certo.



