
A imagem mostra um cubículo de dimensões exíguas e paredes grossas. A porta trancafiada tem barras de metal e dá a ideia de um cárcere e o lugar é isso mesmo. Na cama desfeita, um círculo laranja-avermelhado brilha sobre os tecidos escuros os únicos elementos coloridos com tinta no desenho feito a grafite.
"Pintei a cama da minha cela. Em meio ao cinza sujo das mantas, uma laranja faiscante, que V. trouxe, como a única luz que brilha no lugar. A pequena mancha colorida me fez um bem incalculável."
Egon Schiele (1890-1918) escreveu as palavras acima no dia 19 de abril de 1912, seis dias depois de ter sido preso. O austríaco passou 24 dias trancafiado 21 antes de ser julgado e mais três depois de sentenciado. A partir do terceiro dia, deu início a um diário, publicado agora no Brasil pela paulista Luzes no Asfalto. Além de textos, a edição bilíngue de Na Prisão inclui reproduções das dez obras que o pintor fez atrás das grades.
Pouco depois de se mudar com Valerie Neuzil (citada no diário como V.) para Neulengbach, a 35 quilômetros de Viena, Schiele passou a ser criticado pelos moradores por usar jovens menores de idade no papel de modelos. Mas o motivo da prisão foi outro.
O artista pagou o preço de fazer desenhos e pinturas eróticos, considerados obscenos pelo juiz que tratou do caso este teria, inclusive, queimado uma das obras no tribunal, usando a chama de uma vela. Não fica claro se as acusações vieram depois de uma exposição aberta ao público, ou se a razão foi, nas palavras do prisioneiro, a "suspeita de impudicícia com crianças", pois recebeu jovens em seu ateliê, onde os desenhos eram acessíveis.
O tempo no presídio, de 13 de abril a 7 de maio, é relativamente curto. Porém, ficar na cadeia assim como perder alguém querido deve ser o tipo de experiência que se entende melhor ao senti-la na pele. Parte do trauma de Schiele está ligado à gratuidade da situação e à falta de informação. Até entender o que se passa, ele cria hipóteses mirabolantes e sem sentido.
A sensibilidade do austríaco é enorme. Ele sofre tanto que, a certa altura, se perde no tempo, não sabe mais em que dia está. Sem seu material de desenho, se desespera, "despojado, despido entre paredes frias e nuas, como um animal". Chega a compor imagens usando saliva e poeira. Quando lhe entregam lápis, papel, tintas e pinceis, busca refúgio na arte.
A composição que faz com a laranja "faiscante" é talvez a mais intensa das dez que produziu no cárcere. Nela, o artista despeja a angústia acumulada ao longo de uma semana, dividindo espaço com os próprios excrementos e respirando "odores venenosos e sufocantes". Ele escreveu no dia 17 de abril: "Não, eu não estou sonhando, estou vivo, vivenciando caso a vida não seja apenas um sonho, no qual temos pesadelos".
Depois de dar atenção ao ambiente que ocupava mostrou a cama, a porta, as cadeiras, o corredor, de novo a porta ("...para o mundo!") e de novo as cadeiras, Schiele faz uma sequência de três autorretratos em que descreve um sofrimento crescente.
No primeiro, "Constranger o Artista É um Crime, É Assassinar uma Vida Que Está Germinando!", ele está deitado e se encolhe no espaço entre a cama e a parede, como quem busca um esconderijo. No segundo, coberto pelo próprio casaco, o corpo contorcido e a expressão do rosto têm a legenda perfeita no título: "Prisioneiro!".
O último é o mais aterrador. Há lágrimas nos olhos do homem e as forças o abandonaram. Ele o chamou de "Pela Arte e pelas Pessoas Que Eu Amo, Aguentarei Firme!". Estava preso há quase duas semanas e ainda não sabia o motivo.
"O que será que eu faria agora, caso não tivesse a arte?", diz ao diário no dia 27 de abril. "Quão terríveis seriam as horas incompreendidas... (...) Amo a vida. Amo afundar nas profundezas de todos os seres viventes; mas abomino a obrigação, que me algema com hostilidade, que quer me obrigar a uma vida que não é a minha, que tem pouco sentido, pouca serventia, não tem arte não tem Deus".
Um curto período de tempo num espaço minúsculo conseguiram acentuar ainda mais uma percepção que Schiele já tinha antes de ser preso. A de que a vida sem arte é vida pela metade.
Serviço
Na Prisão/Im Gefängnis, de Egon Schiele. Luzes no Asfalto, 88 págs., R$ 47.




