
Paulo Coelho é um escritor? O fato de escrever, publicar e, sobretudo, vender 100 milhões de livros em todo o mundo garante que ele é, sem nenhuma dúvida, um autor? E mais: o fato de uma pessoa ter sido alfabetizada, escrever e publicar uma obra indica que tal pessoa é, fato consumado, uma escritora? O que é ou faz de um sujeito um escritor? Apenas escrever e publicar? Vender, e vender muito um título escrito e publicado, confirma que determinado sujeito é um escritor?
Entre outras coisas, um escritor é, ou pode ser, alguém que pensa, tem visão de mundo, experiência de leitura e, a partir de linguagem definida por meio de texto escrito, traduz essa visão de mundo a partir de enredo, fabulação, embate de personagens, diálogos e outras características, nuances e detalhes.
Um escritor, geralmente, escreve sobre aquilo que o incomoda, obsessões e idéias fixas a respeito do que ele, escritor, não pode deixar de se pronunciar.
E o que o Paulo Coelho tem a ver com isso? Curioso, curiosíssimo, é que ele escreve sobre temas da moda. Publica O Diário de um Mago em 1987, no momento em que estava em alta a "procura por si mesmo". Em 1990, em meio a ventos esotéricos, bruxas, gnomos e outros seres, Coelho lança Brida, sobre uma bruxa. Coincidência?
Há quem diga que não existe coincidência. Mas, voltando ao "mago", como Coelho também é chamado, em 1994, período em que descoberta pessoal, bruxas e gnomos já eram temas "absorvidos", ele foge do "assunto" e se foca em uma trama de amor, encontros e desencontros com Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei. Maktub? Estava escrito? E, em busca de sua lenda pessoa, enquanto autor de livros, Coelho segue a escrever e a publicar, e a vender bem, inclusive uma obra a respeito do tempo médio que dura uma relação sexual (o romance Onze Minutos, de 2003), até que agora, hoje, lança o seu mais recente "empreendimento": O Vencedor Está Só, longa narrativa, de exatas 400 páginas.
Zeitgeist
Hoje é o tempo das celebridades. O ser humano busca a fama antes mesmo de ter realizado algo que justifique o reconhecimento público. Daí, a febre dos reality shows, o desejo pelo sucesso de qualquer jeito e a ambição de estar na capa de uma dessas revistas semanais que difundem a vida de popstars. Coelho, "sintonizado" no espírito do tempo (ou, em alemão, zeitgeist), oferece agora ao público um livro sobre o mundo dos célebres. Então, algum leitor pode fazer uma observação: "É isso. O Paulo Coelho é um sujeito extremamente atento a tudo o que ocorre no mundo e, por isso, escreve sobre o seu, o nosso tempo".
Outro leitor poderia, ainda, numa situação hipotética, observar que grandes autores abordaram e abordam os impasses de seus tempos, desde muito, desde sempre. Mas a questão que ainda não foi respondida, apenas levantada, é outra: Paulo Coelho é ou seria um escritor? Por hora, a resposta fica em suspenso, pois se faz urgência vislumbrar o enredo deste romance que a Agir lança hoje no Brasil.
O Vencedor Está Só conta a história de Igor Dalev, empresário russo do setor de telecomunicações que tenta recuperar a ex-mulher, Ewa, que o trocou por um todo-poderoso do mundo da moda, Hamid Hussein. O cenário da narrativa é o Festival de Cinema de Cannes. Ali, Igor matará pessoas, ao acaso, para, com isso, chamar a atenção de sua ex-companheira. E, antes que o livro termine, haverá observações, até demais, do narrador em terceira pessoa, sobre o mundo dos famosos.
Os maiores problemas do livro são, justamente, os "comentários". O narrador criado por Coelho interrompe o enredo e, sempre que necessário (para ele), faz uma explicação. Por exemplo, quando o assunto é lavagem de dinheiro, ele "esclarece" que o termo começou a ser usado a partir do momento em que o mafioso italiano radicado nos Estados Unidos Al Capone comprou lavanderias com a finalidade de fraudar a sua movimentação financeira. E, a exemplo dessa, há outras, demais, ao longo do livro. O fato de ele se valer de tal estratégia aponta para uma constatação: Paulo Coelho não é um escritor.
Da tradição
Literatura é algo difícil de definir, mas, para entender do assunto, mesmo que minimamente, é importante mirar obras de autores apontados, de fato, como importantes. Exemplos? O norte-americano Philip Roth, cotado para o Nobel de Literatura. No romance Casei com um Comunista, Roth trata da perseguição a comunistas nos Estados Unidos durante a Guerra Fria e há pontos de vista sobre o tema e explicações. Mas o "conhecimento" é "transmitido" ao leitor por meio das conversas entre os personagens o que vem sendo praticado por autores, considerados bons, desde que literatura é literatura.
A presença de "comentários" e "explicações", excessivos no livro de Paulo Coelho, insistem em sinalizar: ele não é, de fato, um autor. Outro exemplo (contraponto a Coelho): Dalton Trevisan. Os contos do "Vampiro de Curitiba" trazem "apenas" personagens em ação e/ou conversando. Não há "comentários" do autor. Nem explicações. Não há "psicologismo". Há texto, e as eventuais constatações e deduções ficam a cargo do leitor, isso se o leitor quiser "constatar" algo. Alguém poderia lembrar de dois autores em seus centenários: Machado de Assis, falecido há 100 anos, e Guimarães Rosa, que nasceu há 100 anos. Há "explicações" nas obras de Machado e de Rosa? Até há, mas de outro jeito, via humor, ironia e, sobretudo, a partir de linguagem elaborada, o que não se dá em nenhum momento na "produção" de Paulo Coelho.
Linguagem
Apesar dos vários defeitos da obra de Paulo Coelho, há um aspecto indiscutível em sua prosa: a fluência. O texto do autor, como os posts de moleques em blogs, flui. Mesmo sem elaboração, a agilidade da prosa de Coelho pode contaminar os leitores. Isso, talvez, seja um dos fatores que pode ajudar a entender, mesmo que parcialmente, o sucesso de venda. "Não consigo parar de ler os livros de Paulo Coelho". A frase é repetida, continuamente, pelos leitores de Coelho. O texto flui. E, ainda, devido às "explicações", "instrui". A "literatura" de Coelho é carregada de informações, dessas de almanaque, Wikipedia, Google e, ao final, o leitor pode ter a impressão de que saiu da experiência diferente de quando iniciou a leitura, de que está "informado".
Mas literatura é muito mais que apenas contar uma história e despejar no leitor conhecimentos de última hora. Literatura é, acima de tudo, linguagem. E não linguagem neste nem em nenhum outro livro de Paulo Coelho. Ele não escreve: é "escrito" via lugares-comuns e automatismos. No entanto, há um quase-mérito em O Vencedor Está Só. Ele faz crítica ao mundo das celebridades. Mas não "bate" de verdade. Sobretudo, evita atacar realmente. Pois, se fizesse isso, teria de fazer o que nunca fez e tampouco fará, que seria criticar e desnudar um sujeito célebre que não passa de propaganda enganosa: ele mesmo, sintoma do pior de nossa época, miragem de algo que não é: escritor.
Serviço
O Vencedor Está Só, de Paulo Coelho. Agir. 400 págs., R$ 39,90.



