
O roteirista Guillermo Arriaga se fez com os filmes que escreveu para Alejandro González Iñárritu dirigir: Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Houve um, talvez o melhor da sua filmografia, que o ator Tommy Lee Jones realizou: Os Três Enterros de Melquiades Estrada.
A dupla dinâmica Arriaga-Iñárritu rompeu e cada um foi para um lado. Criou-se um embate sem equivalentes no cinema atual. Passou-se a aguardar seus próximos filmes como se fosse uma decisão de campeonato, afinal, eles buscariam afirmar a propriedade sobre os trabalhos anteriores.
Iñárritu dirigiu e roteirizou Biutiful (2010), inédito no circuito mundial, exibido no Festival de Cannes no mês passado e bastante elogiado por quem viu. Arriaga fez Vidas Que Se Cruzam (2008), que sai agora em DVD depois de uma passagem discreta pelos cinemas brasileiros, semanas atrás.
Por onde anda, Arriaga carrega consigo a bandeira de que o roteirista é, se não o principal, um dos principais autores de um filme. Ele falou sobre isso inclusive na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2007. O fato é que seus livros O Búfalo da Noite e outros dois, todos publicados no país pela Gryphus mostram que o roteirista e escritor mexicano tem suas obsessões, tanto na forma quanto no conteúdo.
Em alguma medida, as histórias que cria lidam o acaso e se organizam em narrativas não lineares. Conhecendo as ficções de Arriaga, você pode se sentir "escaldado". Espera que ele conte uma história com fatos embaralhados para que você os organize e, assim, faça uma descoberta surpreendente.
Aqui entra uma das qualidades do novo filme. Sem deixar de ser coerente com os trabalhos anteriores de Arriaga, ele consegue ser um tanto diferente. A estreia do roteirista na direção se dá num drama sem descobertas surpreendentes. É relativamente fácil sacar como as duas histórias se "cruzam" (para usar o verbo do título brasileiro).
O objetivo de Arriaga é explorar os desdobramentos das relações entre uma ação e outra. Na primeira, Charlize Theron interpreta uma mulher com a angústia estampada no rosto. Ela trabalha como anfitriã num restaurante, transa com um dos colegas de trabalho que gosta dela de verdade e parece indiferente a tudo. O que a atormenta é uma questão do passado que não chegou a resolver.
Na segunda história, Kim Basinger faz uma mãe de família que vive uma aventura extraconjugal. Ela parece amar o marido e os três filhos, mas vive um momento de crise sobreviveu a um câncer de mama e tenta aceitar seu novo corpo.
Charlize e Kim são dois sóis no filme. Elas brilham e os outros as orbitam. Não por acaso, não chegam a se encontrar cara a cara porque protagonizam episódios de épocas distintas. GGG




