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Literatura

O vazio pós-Duchamp

O poeta Affonso Romano de Sant’Anna põe em xeque a arte conceitual e desconstrói Duchamp e a cultura das instalações no livro O Enigma Vazio

Em frente à imagem do poeta gaúcho Mario Quintana, Affonso Romano de Sant’Anna descontrói Duchamp em palestra realizada em Curitiba | Matheus Dias/ Divulgação
Em frente à imagem do poeta gaúcho Mario Quintana, Affonso Romano de Sant’Anna descontrói Duchamp em palestra realizada em Curitiba (Foto: Matheus Dias/ Divulgação)

A Bienal de Artes de São Paulo ganhou o apelido de "Bienal do Vazio" a partir de um artigo publicado, há alguns meses, por Affonso Romano de Sant’Anna nos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense, em que ele, inclusive, menciona a expressão.

O poeta e intelectual, equipado que é (doutor em Letras), passou a discutir artes plásticas em 2002, quando publicou o livro Desconstruir Duchamp.

Coincidência ou não, o autor mineiro acaba de publicar O Enigma Vazio – Impasses da Arte e da Crítica, em que problematiza o mote anunciado no título (que dialoga com o acontecimento paulista deste ano).

A gênese desse chamado vazio nas veredas visuais, na avaliação de Sant’Anna, tem a sua gênese em 1917, com o advento do Dadaísmo e, sobretudo, com a projeção de Marcel Duchamp (1887-1968), o precursor da arte conceitual.

"Desde muito, do século 4 a.C., havia algo chamado a grande teoria. Existia compatibilidade entre uma obra e a explicação dessa obra. Com Duchamp, e o Dadaísmo, deixou de ser necessário explicar a obra. Daí, criou-se o vazio", afirma Sant’Anna, que esteve em Curitiba semana passada, no Quintana Bar & Restaurante, para um bate-papo sobre o espinhoso assunto que, naturalmente, divide opiniões.

Em suas viagens pelo mundo, Sant’Anna não deixa de reparar que, em museus, nas salas dedicadas às artes barroca e renascentista, por exemplo, há audiência. Em contraponto, nos espaços dedicados aos discípulos duchampianos, "a turma das instalações", o público é praticamente nulo. "A ausência de pessoas para ver a ‘arte do vazio’ é um fato, e merece atenção."

Se essa arte conceitual não mobiliza (nem minimamente) as massas, "tampouco as moscas", então esses objetos artísticos não-identificados seriam motes para, em vez de vistos, serem pensados. Quem afirma isso é Sant’Anna.

"As bibliotecas estão cheias de livros sobre arte conceitual, mas diante dessas obras não há ninguém." E, se tal linha argumentativa procede, a arte conceitual "pertenceria" antes à literatura e à filosofia do que às artes plásticas.

Para enfrentar esse "vazio enigma", Sant’Anna recorreu a um arsenal teórico, da análise do discurso à teoria da literatura. Rastreou Duchamp e desenvolveu um hobby inusitado. "Passei a colecionar as ‘bobagens’ que Duchamp falou. E é uma lista sem fim de tolices." E quais seriam essas pérolas?

Duchamp disse: "A idéia de julgamento deveria desaparecer". Também afirmou: "Sou totalmente um pseudo". Perguntou: "Pode alguém fazer obras que não sejam obras de arte?". E chegou a pontuar que "a palavra não tem a menor possibilidade de expressar alguma coisa".

Sant’Anna fica perplexo com o fato de as pessoas não terem levado Duchamp a sério. "Pensavam que ele estava brincando, mas era uma brincadeira calculada. Tudo o que Duchamp fazia era planejado."

Essas constatações são fruto de exaustivas análises da vida e obra, o que inclui leituras de biografias do criador dos ready mades – os tais objetos cotidianos (um urinol, por exemplo) transportados para o terreno das artes .

A partir de um termo da lógica, o "declive escorregadio", Sant’Anna seguiu em sua jornada rumo à desconstrução de Duchamp. "Declive escorregadio se dá quando um sujeito afirma algo e não explica. Fala uma segunda frase, e também não explica. Em breve, tudo que foi dito, mesmo sendo uma bobagem, passa a ser aceito como verdade. Há quem diga que Duchamp é um filósofo."

Para entender (e decifrar) o enigma vazio, Sant’Anna apresenta uma declaração "escorregadia" de Duchamp: "Quanto mais convivo com artistas, mais convencido fico de que eles são uns farsantes depois que começam a ter um mínimo de sucesso".

Sant’Anna emenda: "Se todo artista é um farsante quando tem sucesso, Duchamp teve sucesso, logo, Duchamp é um farsante."

Mesmo considerando o franco-americano um "engodo", Sant’Anna reconhece que ele foi um dos maiores "jogadores" do mundo. "Era charmoso e sedutor. Inclusive, recebia uma pensão de uma milionária apaixonada por ele."

Nessa ilíada para entender o vazio nas artes plásticas, em meio a palestras e debates, Sant’Anna ainda não encontrou ninguém com argumentos que desmontassem a sua argumentação. "Pelo contrário, muita gente passou a ter insônia. Eu sonho tranqüilo. Decifrei o enigma".

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Serviço

O Enigma Vazio – Impasses da Arte e da Crítica, de Affonso Romano de Sant’Anna. Rocco, 336 págs., R$ 49.

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