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Carnaval

Olha o Neguinho da Beija-Flor aí, gente!

Maior puxador de sambas do Brasil, cantor e compositor esteve em Curitiba para um show genuinamente carioca

Neguinho durante a apresentação: voz potente e muito ouro | Priscila Fiedler/ Divulgação
Neguinho durante a apresentação: voz potente e muito ouro (Foto: Priscila Fiedler/ Divulgação)
Roda de samba resgatou antigas composições carnavalescas |

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Roda de samba resgatou antigas composições carnavalescas

Neguinho da Beija-Flor está atrasado. Faltam quinze minutos para a meia-noite quando o sambista entra atropelando os passos no bar Aos Democratas, em Curitiba. É uma quinta-feira, dia 9 de fevereiro. Seus mú­­sicos estão tocando reco-reco por distração, enquanto o pú­­blico repara na parafernália de cavaquinhos, atabaques e mi­­cro­­fones montada em um palco que parece ter saído de um churrasco de alguma família carioca de classe média.

O motivo do atraso é plenamente justificável para alguém como ele, um exemplo vivo de brasilidade: é o jogo entre Flamengo e Madureira pela Taça Guanabara, primeiro turno do Campeonato Carioca. O time de Ronaldinho Gaúcho, que venceu por 1 a 0, talvez seja a se­­gunda maior paixão de Ne­­guinho. A prova da maior delas o sambista carrega no RG: a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, da qual é o intérprete oficial desde 1976.

Já no "palco", exibe suas roupas e sapatos brancos. Estes, aliás, poderiam servir de espelho, tamanho o lustre. Sua voz potente primeiro agradece, depois homenageia. A primeira música é "Fogo e Paixão", maior hit de Wando, morto no dia anterior à apresentação. "Ele foi um dos grandes da música brasileira, não poderia deixar de prestar essa homenagem", disse Neguinho, em en­­trevista após o show.

A seguir, surge uma frase daquelas que, como se diz, fez ligar o nome à pessoa – me­­nos para os avoados que pres­­tavam mais atenção nas bandejas de chopes que iam e vinham do que propriamente no intérprete sorridente. "Olha a Beija-Flor aí, gente", finalmente gritou o sambista, arrancando aplausos também pela memória.

Depois de Jamelão (1913-2008) e Joãosinho Trinta (1933-2011), pouca gente tem tanto prestígio na Sapucaí quanto Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes. Filho de músicos, Neguinho começou a puxar samba aos 10 anos, idade em que venceu seu primeiro concurso. Na década de 1970, estreou no bloco Leão de Iguaçu. Surpreendeu. Em 1976 foi anunciado como puxador oficial da Beija-Flor, de on­­de nunca mais saiu.

"Cresci com a escola, é verdade. Mas deu tudo certo. Nos encontramos no meio de um grande carnaval", diz Neguinho, referindo-se ao momento da Beija-Flor no cenário das escolas de samba do Rio naquela época, dominado por outras bem mais tradicionais, como Mangueira e Portela. A Beija-Flor foi fundada em 1948, mas só foi vencer seu primeiro desfile justamente em 1976. Desde que Neguinho assumiu o mi­­crofone do bloco, há 36 anos, a escola foi campeã por 12 vezes – a última, ano passado.

Mulher, mulher, mulher

Durante a cantoria do sambista, mais precisamente durante uma música de Zeca Pagodinho, algumas mulheres – as mais bonitas, altas e maquiadas – exibiam pulseiras cor-de-rosa nos pulsos. Segundo boatos, são essas as "escolhidas" de Neguinho para ir visitá-lo no camarim. Futebol, música... Não poderia faltar a mu­­lher, tema do samba "Mu­­lher, Mulher, Mulher (Ideia Fixa)", composta em 1974 e regravada pelo carioca em 2010.

"As mulheres fazem parte dessa festa toda. Hoje tá parecendo um jardim florido, olha só", metaforiza o músico.

Neguinho já foi enredo de quatro escolas de samba. A última homenagem foi em 2010, quando confirmava sua recuperação de um câncer de intestino. O sambista também de­­monstrou interesse em ser prefeito de sua cidade natal, Nilópolis. Mas aí a conversa gera um descompasso. "Isso não, che­­ga. Estou bem assim, fazendo música. Foi uma ideia, mas já passou", disse, não exatamente à vontade.

Depois da entrevista, Neguinho continuou a tirar fotos com as fãs, que faziam uma fila imensa. No peito, um medalhão que imitava um beija-flor balançava de lá para cá. No pulso, uma corrente era usada com folga. E no dedo, um grande anel se destacava. "É tudo de ouro?", pergunta a reportagem. O sambista acena com a cabeça, discreto, sai de fininho e se prepara para outra foto.

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