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Sinfonia da Alvorada

Olho d´água no Catetinho foi inspiração para clássico da Bossa Nova

Em junho de 1959, a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes se hospedou por 10 dias no Catetinho - para compor a Sinfonia da Alvorada, mais tarde conhecida como Sinfonia de Brasília. A vontade de Juscelino Kubitschek era ter o espetáculo pronto antes de 21 de abril do ano seguinte, dia marcado para a nova capital nascer. A idéia era, segundo relato de Vinicius, criar um espetáculo de "som e luzes" para Brasília, maneira dos que são feitos na França em Versailles, Fontainebleau e outros castelos.

Como a encenação do Orfeu da Conceição, a encomenda de JK reuniria a poesia de Vinicius (responsável pelo texto do coral), a música de Tom (já em esboço desde 1958), e os cenários de Oscar Niemeyer (cenógrafo do espetáculo que antecedeu a Bossa Nova), criador dos prédios e monumentos da Praça dos Três Poderes, que seria palco para o empreendimento, como nomeia Vinicius de Moraes na crônica Brasília: o Nascimento de uma Cidadeou Como se Faz um Poema Sinfônico (publicada recentemente no livro Samba Falado, da editora Beco do Azougue).

O espetáculo só veio a ser encenado dez anos após a morte de Juscelino e seis depois da morte de Vinicius de Moraes, em 1986. Brasília, então com 26 anos, finalmente ouviu sua sinfonia sob a regência de Alceu Bocchino, com Radamés Gnattali ao piano e Tom Jobim e Susana de Moraes (filha de Vinicius) lendo o texto do poeta.

A peça erudita e quase inédita, no entanto, tem uma irmã popular e está entre as mais executadas do cancioneiro da Bossa Nova. A famosa Água de Beber (cantada até por Frank Sinatra) foi composta por causa daqueles dias de Catetinho, sob a inspiração de um lindo olho d'água que brotava no capão do mato, como descreveu Vinicius em sua crônica.

A música, um samba, é uma típica canção de Vinicius, que reafirma convicções sobre o amor: o medo pode matar o seu coração; a minha casa vive aberta, abri todas as portas do coração.

De acordo com Paulo Jobim, filho mais velho de Tom, o pai gostava muita da canção e costumava abrir os shows com ela. A letra é meio doida, brinca ao dizer que o autor conseguiu juntar questões sentimentais - o Vinicius gostava dessa coisa dramática - com um tema que parece folclore.

Para o jornalista José Castello, biógrafo de Vinicius de Moraes, as citações do poeta não eram gratuitas, Ele vê traços na canção que antecede os afro-sambas que, mais tarde, o poeta iria compor com Baden Powell. Para Castello, a defesa do amor ouvida na letra de Vinicius era uma questão de entrega, que lhe exigia quase uma metamorfose, assinala. Vinicius afirmava o amor como um ato de coragem, lembra.

Ao final da crônica, escrita em 1961 sobre a Sinfonia da Alvorada, o poeta confessa mais sentimentos e a esperança quanto a um novo país que pudesse brotar. Na sinfonia, revelava o amor pela obra, diretamente equacionada pela nossa confiança no futuro de Brasília e do Brasil.

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