Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Artigo

Os jardins do amanhã

Os domínios da pintura, arquitetura e paisagismo nunca estiveram tão bem integrados em uma só pessoa como em Roberto Burle Marx.

Três figuras deram um sotaque particular e original ao movimento moderno: Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Roberto Burle Marx. O primeiro imprimiu uma dimensão histórica que propiciou uma profundidade dialética entre as novas formas e a tradição construtiva local, fornecendo uma alternativa à pura oposição européia entre renovação e revolução que fazia da amnésia o único meio para novos caminhos. Niemeyer introduziu a graça formal a partir da exploração radical da tecnologia do concreto armado fornecendo, com suas formas livres, uma alternativa ao previsível esgotamento do racional-funcionalismo. Burle Marx criou, a um só tempo, o paisagismo tropical e uma linguagem internacional e moderna dos jardins. E o fez a partir da valorização estética da flora nativa, resgatando-a da triste condição de mato, revelando-a para o mundo e para os próprios brasileiros.

Os domínios da pintura, arquitetura e paisagismo nunca estiveram tão bem integrados em uma só pessoa como em Roberto Burle Marx. Pre­ten­dendo ser uma obra de arte to­­tal, a arquitetura propunha uma integração entre estrutura de sustentação e aparência visual, organização dos espaços internos e externos e o traçado urbano. Nesse processo o jardim passou a se fundir ou, pelo menos, a se aproximar do prédio, assim como a arte abandonou a aplicação decorativa nas fachadas, passando a ter presença concreta escultural ou a servir de lógica de inspiração para a organização dos jardins. A condição de pintor de Roberto Burle Marx possibilitou-lhe uma aplicação estrutural profunda de princípios pictóricos na paisagem, escapando da transposição literal da arte cubista ou abstrata que resultou em quase caricaturas no trabalho de outros pioneiros do jardim moderno. O conhecimento botânico permitiu-lhe descobrir novas espécies, pensadas não apenas a partir de suas belezas individuais mas integradas em sistemas ecológicos, possibilitando uma escolha adequada de conjuntos harmônicos, tanto do ponto de vista estético quanto de boa sobrevivência no habitat novo do jardim. O domínio do espaço arquitetônico foi um aspecto essencial de seu trabalho pois permitiu-lhe estabelecer um diálogo de formas, espaços e volumes com as construções. Conversa que podia fazer o jardim ecoar, harmonizar, contrastar ou, no caso de não tão boa obra, sobrepor-se à arquitetura.

Na virada do século 19 para o 20, a importação de modelos intelectuais e estilos acontecia em todos os campos artísticos em nosso país. No caso do Paisagismo a questão assumia gravidade maior porque os elementos importados feneciam ou não se adaptavam ao clima brasileiro. Um duplo movimento era preciso: romper os modelos rígidos, vindos sobretudo da escola francesa de Belas Artes, e diminuir ou abolir as espécies exógenas. O criador do Aterro do Flamengo, como tantos paisagistas de várias nacionalidades no século 20, reabilitou as plantas nativas para uso nobre. Soube fazê-lo, todavia, sem resvalar em nacionalismo exacerbado como vários profissionais, em espectro que vai do nativismo pacifista norte-americano do dinamarquês lá radicado Jans Jensen (1860-1951), do orgulho britânico naturalismo de William Robinson (1838-1935) ao ideário nacional-socialista do alemão Willy Lange (1864-1941). Valeram a Burle Marx para escapar dessa armadilha chauvinista a sofisticação intelectual, o apreço ao universalismo propiciado pela abstração e, não menos importante, a ampliação da abrangência de sua obra com as expedições de pesquisa botânica a todas as faixas do planeta situadas nas regiões tropical e subtropical.

O paisagista brasileiro executou projetos nos mais diversos lugares: África do Sul, Alemanha, Argentina, Áustria, Barbados, Bélgica, Chile, Cuba, Equador, Estados Unidos, Fran­ça, Itália, Israel, Malásia, Para­guai, Peru, Porto Rico, Suíça, Uruguai e Venezuela. A sua linguagem se universalizou de tal modo em nosso imaginário que muitas vezes não percebemos estar cruzando um jardim de sua autoria, assim como estrangeiros não desconfiam que algumas de suas praças foram concebidas por seguidores dos princípios estabelecidos por Roberto Burle Marx que cruzaram o Atlântico na direção inversa, constituindo um dos raríssimos casos nos quais as idéias e práticas inovadoras provêm da América do Sul.

Um dos pontos fracos da arquitetura moderna foi a sua incapacidade de lidar com os inevitáveis efeitos da passagem do tempo em suas realizações. Obras puras e ideais, quase sempre, elas envelhecem muito mal pois a pátina e as falhas, que fornecem densidade e solidez aos estilos historicistas, nas obras modernas maculam as superfícies lisas e denunciam a veleidade de suas pretensões a obter realizações atemporais e definitivas. No paisagismo de Burle Marx, o conhecimento botânico facultou-lhe a utilização correta das plantas, garantindo uma boa adaptação climática onde quer que as implantasse, assim como previa o volume, a cor e a textura das plantas durante todo o seu ciclo de crescimento, permitindo prever a evolução e, no caso de exemplares mais frágeis e perecíveis, facilitando a previsão do momento de replantio. Desse modo, ao invés de inimigo, o tempo foi seu aliado constante. O paisagista costumava dizer que lhe cabia apenas iniciar o trabalho nos jardins pois "o tempo faz o resto".

Nos seus jardins, a fluidez prevalece em oposição ao estático e modular. Característica atualíssima pois os mais importantes trabalhos contemporâneos em arquitetura e urbanismo deixaram de lado a ilusão de controlar de modo absoluto o espaço e a matéria, atitude preconizada por Burle Marx ao integrar o tempo, a luz, a sombra, o vento, a chuva, o ruído e os pequenos animais como elementos do todo indivisível que formava o jardim.

Ao comemorarmos o seu centenário, salta aos olhos o frescor e a atualidade de sua produção. Diferentemente de algumas contribuições magníficas, porém datadas, os belíssimos jardins de Burle Marx poderiam ter sido feitos anteontem, hoje ou amanhã...

Lauro Cavalcanti é arquiteto e Doutor em Antropologia Social. Autor de vários livros sobre arte e arquitetura é o curador da mostra e organizador do livro Roberto Burle Marx 100 anos: a Permanência do Instável, em exibição no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Veja também

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.