
Londrina - Na fila que se forma diante do Teatro Zaqueu de Melo pouco antes das 19 horas, se vê estudantes de teatro, sim, mas também adolescentes, casais jovens ou de longa data e grupos de amigos. Todo tipo de gente, inclusive os que claramente não costumam pisar em um teatro durante o resto do ano.
Já dentro da pequena casa de espetáculos, o comportamento de uns e outros denuncia a pouca familiaridade com o lugar na plateia: a moça ao lado saca a câmera fotográfica desobedecendo à instrução de não fotografar a peça e aborrecendo os ouvidos dos que estão ao redor com ruídos ao mexer na bolsa.
Mas logo ela mesma desiste de se distrair e se deixa absorver por aquele instante único de espetáculo: uma montagem de Don Juan com um ator e três bonecos, falada em espanhol sem legendas, e capaz de silenciar por 70 minutos um atento aglomerado humano.
O Festival Internacional de Teatro de Londrina (confira a programação completa), o Filo, mobiliza mesmo a cidade. Prova é que atrai esse público espontâneo sem precisar se escorar em celebridades televisivas. As grandes atrações da edição atual, que se encerra no dia 27 de junho, são Marta Carrasco (fez sua última apresentação com Dies Irae ontem à noite) e Pippo DelBono (apresenta amanhã e quarta-feira o espetáculo Guerra). Uma espanhola e um italiano cuja fama não ultrapassa os círculos artísticos, porém despertaram a curiosidade de espectadores iniciados e eventuais.
Se isso acontece, é porque o Filo conquistou, em mais de 40 anos de tradição, a confiança do londrinense e de alguns vizinhos. "O festival é sinônimo de qualidade", diz o ator Remir Trautwein, em cena nas peças Metamorfose e Drácula e estreando na direção com Cabaré da Confraria, depois de 26 anos só como intérprete. "As peças locais fazem temporada de um mês durante o ano com público mínimo. Quando se apresentam no Filo, têm fila de espera", compara.
Qualidade
A programação do evento se estende por duas semanas e meia, mas sem os exageros numéricos vistos durante o Festival de Curitiba, que deixam o público sem muita segurança da qualidade envolvida na produção da maior parte das montagens. A seleção em Londrina é mais concisa e criteriosa. Nesta 42.ª edição, participam 55 espetáculos, 18 deles internacionais. Todos passam por curadoria, atestando um padrão básico de qualidade, ainda que naturalmente haja divergências e diferenças no impacto que cada uma causa. "A proposta do nosso festival é de um teatro mais investigativo. Menos comercial e mais artístico", resume Trautwein.
Outro fator determinante para a participação popular é o preço acessivel. Os ingressos custam
R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia, mesmo para os espetáculos internacionais para efeito de comparação, este ano havia peça cobrando R$ 50 no Festival de Curitiba. Isso permite que os espectadores adquiram entradas para vários deles. A servidora pública Carolina Ferreira e o marido, o advogado Ricardo Ferreira, por exemplo, compraram para quatro peças, três adultas e uma infantil, que verão com a filha de 3 anos.
"Tem gente que vai todos os dias", diz a coordenadora da bilheteria, Gabriela Viecili, com o conhecimento de quem, além de cuidar das vendas, recolhe os bilhetes na porta dos teatros. "As pessoas entram nessa overdose de espetáculos." Gabriela conta que muita gente prefere ir ao teatro durante o festival porque, no restante do ano, auditórios como o Marista cobram mais caro pelos ingressos. "No Filo, o público é bem variado, desde estudantes de todos os cursos, a professores, médicos, advogados e psicólogos. Frequentadores da classe D e C, até a A", diz.
E não só de Londrina. Moradores das cidades da região, em geral desatendidas de boas opções culturais, se deslocam para acompanhar a programação. Cambé e Cornélio Procópio marcam presença, mas foi da pequena Marialva que veio uma leva de alunos trazidos por seus professores. Maringá é campeã: ano a ano, o grupo Teatro e Tanto chega com um ônibus cheio de adolescentes. Desta vez, foram dois ônibus e em duas ocasiões: viram A Tempestade e Memória da Cana na primeira viagem, e Dies Irae e Kabul na segunda.
Antigamente, havia durante o Filo um ponto de encontro musical, o Cabaré, que ajudava a atrair gente desligada do teatro. Na última vez em que foi realizado, há dois anos, se apresentaram Fernanda Takai e Ney Matogrosso. Mas cortes financeiros o paralisaram até segunda ordem.
De qualquer forma, o Filo cumpre sua função de todos os anos oferecer uma boa amostra da produção local, capturar alguns dos principais espetáculos brasileiros em temporada e ainda apresentar o teatro feito fora das fronteiras nacionais, derrubando barreiras de línguas. O japonês Kazuo Ohno, mestre do Butô morto há poucas semanas, passou pela cidade em 1992. O inglês Peter Brook, em 2008. Esses e tantos outros mais, os londrinenses viram.
A jornalista viajou a convite do festival.



