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Os rastros de um cometa

Livro reúne imagens e textos relacionados aos desenhos do catarinense Luiz Henrique Schwanke, que construiu sua trajetória artística em Curitiba

Luiz Henrique Schwanke produziu mais de 5 mil obras, entre desenhos, pinturas, esculturas e instalações | Paulo de Araújo/Divulgação
Luiz Henrique Schwanke produziu mais de 5 mil obras, entre desenhos, pinturas, esculturas e instalações (Foto: Paulo de Araújo/Divulgação)
Obra sem título, em guache sobre papel, de 1984 |

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Obra sem título, em guache sobre papel, de 1984

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A trajetória do artista Luiz Henrique Schwanke (1951-1992) foi curta, mas incrivelmente profícua. Quando morreu, aos 40 anos, o catarinense de Joinville já era um dos artistas brasileiros mais premiados em exposições e acumulava mais de cinco mil obras, entre desenhos, pinturas, esculturas e instalações.

Há quem se recorde, ao ouvir seu nome, das compridas fileiras de baldes plásticos que marcaram a última fase de sua produção, elaborada em seu retorno a Santa Catarina após viver um longo período em Curitiba. Aqui, ele se formou em Comunicação Social pela Universidade Federal do Paraná, atuou no teatro como dramaturgo, ator e cenógrafo, e deu início a uma instigante produção artística que, mesmo desvencilhada de grupos, estava em franca conexão com o momento artístico mundial.

"Schwanke teve uma carreira totalmente isolada, era um franco-atirador, totalmente fora do circuito", conta o crítico de arte Walter de Queiroz Guerreiro, em entrevista por telefone à Gazeta do Povo. Ele é o organizador do livro Schwanke: Rastros, lançado pelo Instituto Schwanke em parceria com a editora mineira C/Arte, que reúne cerca de 2.500 desenhos, entre obras acabadas, estudos, esboços, rabiscos e anotações produzidas entre 1977 e 1988.

Guerreiro conheceu Schwanke em uma exposição individual que ele realizava na Galeria Arco de São Paulo, em 1987, na qual exibia alguns de seus famosos "linguarudos" – a vertente mais emocional da obra do artista, formada por figuras sempre de perfil, de expressão deformada, boca aberta, língua e dentes de fora. Em 1991, ao se mudar para Joinville, o crítico voltou a encontrá-lo trabalhando com os objetos tridimensionais da última fase.

Convidado para organizar o livro pelo Instituto Schwanke – fundado em 2003 para criar e manter, em Joinville, o Museu de Arte Contemporânea Schwanke, ainda em fase de negociação –, Guerreiro debruçou-se sobre os desenhos do artista, com a ajuda de uma equipe contratada para um projeto mais amplo, de catalogação e restauração das obras em papel. "Separamos os desenhos por séries e selecionei textos [entre entrevistas, críticas e depoimentos] publicados sobre o artista entre 1980 e 2010.

Entre eles, produções de críticos do Paraná como Nilza Procopiak, Maria José Justino e Adalice Araújo, "que foi muito amiga dele e o considerou um artista paranaense", lembra Guerreiro. Há até uma poesia de Paulo Leminski, "Seios, Anseios e Receios", produzida como poema-apresentação da Caixa de Criação Galeria de Arte, em 1984, inspirada nos painéis de Schwanke que retratam enormes seios com pinceladas rápidas e vigorosas.

Ao lado de Victor Meirelles e Martinho de Haro, Schwanke é considerado um dos marcos da arte catarinense. "Meirelles como parte da tradição da pintura clássica e da história do Brasil, De Haro, pela sua importância no Modernismo, e Schwanke, por trazer a contemporaneidade a Santa Catarina", explica Guerreiro.

O artista também é celebrado por ter sido o primeiro de seu estado a participar de uma Bienal Internacional de São Paulo, em 1991, onde exibiu Cubo de Luz, uma obra desmaterializada, "um cubo que o público vê, mas não consegue penetrar pela forte luminescência", como explica Guerreiro.

Em texto publicado no livro, a curadora Alena Marmo escreve que a obra de Schwanke tem duas vertentes: a racional e a emocional. "Na primeira, percebemos erudição por meio da revisitação à história da arte, na segunda, emoção como reação aos descalabros mundanos." Mas sempre estão presentes características como a proposição de enigmas pela desconstrução da imagem e a fina ironia.

Guerreiro abre o livro com desenhos da fase inicial, em que Schwanke dialoga com clássicos da pintura como Caravaggio, Leonardo da Vinci, La Tour e Mondrian para extrair dessas obras outro universo conceitual. Após essa fase, o artista mergulha no Neoexpressionismo e traz à tona seus "linguarudos", produzidos à exaustão e, muitas vezes, enviados aos amigos pelo correio sem maiores explicações. "Gritos ou vômitos? Se guardam uma crítica social, ela é sutil. Há uma obsessão do artista por esses perfis-linguarudos (presentes até 1987), que se multiplicam na repetição, embora cada um afirme uma expressão própria, uma personalidade", escreveu Maria José Justino, em 1996.

São figuras em que línguas, bocas, seios, dentes saltam aos olhos. "Em boa parte de seu trabalho figurativo, há um cunho sexual muito forte, relacionado a uma questão homem-mundo, um diálogo íntimo que ele exacerbava em repetições", diz Guerreiro. Depois disso, Schwanke retorna ao construtivismo, ao voltar sua atenção para a tridimensionalidade, pela acumulação de baldes, mangueiras, bacias e outros objetos plásticos marcantes em sua produção.

O curador Olívio Tavares de Araújo percebe, em texto de 2005, que as carrancas pintadas de maneira nervosa e urgente pelo artista, que se enforcou em ateliê, continham um significado trágico e pouco compreendido: "(...) a necessidade imperiosa de preencher o vazio do terror interior com um trabalho repetitivo e esgotante, como se só ele pudesse anestesiá-lo do sofrimento".

Com o livro, Guerreiro espera que a obra de Schwanke, um artista que, apesar da distância que o separava do eixo Rio-São Paulo, ganhou notoriedade em vida, possa ser apreciada em exposições país afora, incluindo uma mostra retrospectiva em Curitiba, cidade que escolheu para sua formação e atuação como artista, já em fase de negociação no Museu Oscar Niemeyer.

Serviço

Schwanke: Rastros, com organização de Walter de Queiroz Guerreiro. Instituto Schwanke/Editora C/Arte, 204 págs., R$ 130, à venda nas Livrarias Curitiba, pelo site www.comarte.com e pelo telefone (31) 3491-2001.

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