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Polêmica

Paradise Now retrata como se fazem homens-bomba

No início deste ano, uma das maiores polêmicas em torno da cerimônia de entrega do Oscar foi a indicação ao prêmio de melhor filme estrangeiro de Paradise Now. O motivo: a produção representava o Estado da Palestina, país que ainda não existe oficialmente. De quebra, tratava de um tema no mínimo controverso nos tempos atuais, o terrorismo.

O filme, um ousado thriller político que discute a tênue linha que separa fanatismo religioso, idealismo político e instabilidade emocional, chega às locadoras brasileiras nesta semana. Merece ser visto – e discutido – por todos que se interessam por assuntos relativos ao quadro geopolítico contemporâneo, mas não é destinado apenas a espectadores mais politizados.

Embora tenha, sem qualquer sombra de dúvida, um forte conteúdo político, o filme é, sobretudo, uma grande obra de suspense, daquelas que mantém o espectador tenso e sem fôlego do início ao fim.

O enredo tem como protagonistas Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), melhores amigos desde a infância. Eles integram uma pequena célula terrorista incrustada em Nablus, localidade da Cisjordânia. O grupo planeja seu primeiro atentado contra a população israelense em dois anos. E Said e Khaled são os escolhidos para cumprir a missão suicida.

Paradise Now, dirigido pelo israelense de origem palestina Hany Abu-Assad, a partir de um roteiro escrito a quatro mãos com o produtor holandês Nero Bayer, acompanha, passo a passo, os dois dias que antecedem o ataque. A trama tem início horas antes de os dois personagems serem comunicados por uma organização extremista não-identificada que são "os eleitos" para executar a tarefa. Culmina 48 horas mais tarde em um desfecho que parece incerto até o último minuto da trama.

Outro elemento fundamental da história é a sensação de paranóia que permeia a ação. Esse sentimento é perceptível em todos os lugares: nos becos da cidade palestina, no esconderijo onde o atentado é planejado, na fronteira com Israel e nos caminhos percorridos pelos protagonistas na tentativa de executar seu plano. Levando-se em conta a chegada do grupo extremista (e terrorista) Hamas ao poder na Palestina, o intuito de Paradise Now de humanizar a figura do homem-bomba é corajosa, senão perigosa.

Mas como A Queda, produção alemã indicada ao Oscar de filme estrangeiro em 2005, fez com Adolf Hitler, Paradise Now não teme iluminar espectadores menos informados sobre a face humana de figuras demonizadas pela mídia. Embora não seja um libelo pró-terrorismo, a produção consegue mostrar como funciona o psiquismo de seres humanos condenados a uma existência pela metade.

O personagem mais exemplar, nesse sentido, é Said, jovem mecânico que guarda no coração um trauma profundo: seu pai foi executado pelas autoridades palestinas, acusado de ter sido colaborador do governo de Israel. O estigma da traição o acompanha, embora tenha optado, desde muito cedo, a lutar pela causa de seu povo. Quando é informado da missão, contudo, Said começa a questionar a validade da violência como única forma de resistência. Khaled, por outro lado, aparentemente tem certeza da validade do ataque. As posturas dos dois amigos, entretanto, vai mudando na medida em que o momento culminante do atentado se aproxima. Ao mesmo tempo sutil e perturbador, Paradise Now merece todos os prêmios e atenções que recebeu. GGGG1/2

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