
"O Beijo do Hôtel de Ville" é uma fotografia que ainda faz românticos suspirarem. O encanto resistiu até à revelação recente de que o casal que se beija na imagem posou para Robert Doisneau (1914-1994), o que costuma levantar questões sobre os limites do fotojornalismo.
A imagem faz parte de Paris Doisneau, livro fascinante que sai pela Cosac Naify e compila 500 fotografias num acervo de 400 mil negativos deixados por "Duanô". É uma obra de fôlego incontestável a respeito de uma paisagem exaustivamente fotografada, uma cidade que parece às vezes um clichê de si mesma.
Este é um valor do trabalho de Doisneau: evitar do clichê. Para citar um exemplo, a Torre Eiffel só aparece discretamente em cliques de turistas feitos nos anos 1950. A Paris retratada por Doisneau é mais complexa do que a dos cartões-postais.
O livro se divide em cinco capítulos e é todo pontuado por aspas de Doisneau a respeito da capital francesa. O fotógrafo cuja carreira começou na fábrica da Renault, trabalhou para a revista Vogue e cobriu a Segunda Guerra Mundial, a exemplo do que fez o húngaro Robert Capa nome presente em dois lançamentos recentes da Cosac Naify também relacionados à fotografia, as memórias Ligeiramente Fora de Foco e o livro-reportagem Um Diário Russo, correalizado com o escritor John Steinbeck.
"Paris por Acaso", o primeiro capítulo de Paris Doisneau, tem flagrantes do cotidiano da cidade seja um casal de velhos sentados no parque (um lê jornal e a outra faz trabalho manual), seja um grupo de crianças que atravessa a rua numa corrente humana.
Em seguida, "Paris Se Revolta" fala do período da guerra, quando população formou uma resistência contra os nazistas.
Na seção "Paris dos Parisienses", são marcantes as cenas que mostram feiras de rua, açougues e outros comércios. Bem como um lixão da cidade. Há ainda uma seleção de momentos hilários, todos de 1945, de pessoas no Museu do Louvre diante da "Monalisa", de Leonardo Da Vinci. Olhos arregalados e pescoços esticados fazem parte do exercício que a maioria faz na frente do quadro pequeno (em tamanho, não em na importância).
Vendo as fotos, não demoram a aparecer figuras ilustres: os escritores Raymond Queneau e André Maurois, os cineastas Luís Buñuel e Orson Welles, a atriz Juliette Binoche, o artista plástico Alberto Giacometti e vários outros...
Na penúltima parte, "Paris Se Diverte", Doisneau passeia por parques, clubes e fotografa até um circo de pulgas (!). Num baile, um senhor assanhado segura com gosto no traseiro de sua parceira de dança, sorrindo sem jeito ao ser flagrado pela câmera.
O volume termina com "Paris Concreto", feita de prédios, praças e ruas.
São tantas as histórias narradas pelas imagens e tantas as formas de "lê-las" que não parece possível apreender todas informações e detalhes envolvidos em cada fotografia. Essa é a impressão que Paris Doisneau deixa ao fim de uma primeira, lenta e demorada leitura: a de ser inesgotável.
Serviço: Paris Doisneau, de Robert Doisneau. Tradução de Célia Euvaldo. Cosac Naify, 400 págs., R$ 110.




