
Quinze anos depois de gravar a primeira demo, o Pato Fu quer provar que é possível viver de música independente. A experiência atual da banda no circuito fora das grandes gravadoras remonta ao primeiro álbum, Rotomusic de Liquidificapum, quando John Ulhoa ainda era o vocalista. Depois da estréia, a BMG se interessou pela banda mineira e a incorporou ao seu elenco.
O Pato Fu lançou seis discos sob a proteção da gravadora, conquistou um público fiel, mas nunca esteve entre os artistas mais vendidos. "Cuidar da parte artística sempre esteve totalmente nas nossas mãos. Ficávamos meio de lado, o que nos dava uma liberdade artística tremenda. Em compensação, não fazia muita diferença estar em uma grande gravadora", comenta a vocalista Fernanda Takai, em entrevista ao Caderno G.
O empurrão para voltar à carreira independente veio da EMI. O Pato Fu se preparava para assinar o contrato com a gravadora, quando um novo presidente assumiu e declarou que não queria mais a banda. "Era um sinal", diz Fernanda. "Essa relação entre artista e gravadora é cada vez menos necessária. Não digo para o pessoal muito novo, que precisa de visibilidade, mas para artistas mais conhecidos, com uma discografia significativa, é um passo essencial".
O oitavo disco da banda, Toda Cura para Todo Mal, de 2005, já havia sido gravado no estúdio da vocalista e do marido, John, mas a distribuição ficou por conta da BMG. Este ano, o Pato Fu se desligou por completo das gravadoras para lançar o novo trabalho, com o emblemático título Daqui pro Futuro.
As faixas do disco já estão à venda na Uol Megastore (http://megastore.uol.com.br/) e o registro em CD será lançado em 17 de agosto, de maneira independente, por um preço muito abaixo do praticado pelas gravadoras e suas superestruturas: R$ 9,90.
A independência, para Fernanda, "é uma evolução". "O Pato Fu talvez seja, agora, a maior banda independente do Brasil. Antes era a menor banda de major", compara. A vocalista diz que "dá gosto" ver como as bandas independentes sobrevivem em outros países, com a agenda de shows lotada de segunda a segunda.
No Brasil, o cenário é bem diferente. A turnê de Toda Cura para Todo Mal passou pelo interior paranaense, mas não veio à Curitiba. A banda também não conseguiu levar o show a Florianópolis, Fortaleza, Belém ou Recife. "O mercado de shows ficou tão cruel quanto o de rádio. Os produtores só fecham contrato com as dez bandas que mais vendem, não se interessam por bandas de médio porte, como é o Pato Fu", reclama.
Não há garantias de que o show de Daqui pro Futuro consiga viajar mais. "A gente tem um tamanho de banda difícil, não é nem grande, nem indie que vai sem ganhar cachê", explica a vocalista. Mas, vontade de tocar em Curitiba, segundo Fernanda, não falta. "Curitiba tem um público legal, que reclama porque parece que a banda está com birra da cidade, mas não é isso, são os vícios do mercado", diz ela.
Daqui pro Futuro é talvez o mais homogêneo dos discos do Pato Fu, e o mais calmo e delicado. Para levá-lo ao palco sem trair o "jeito Pato Fu" de tocar para o público, algumas canções do disco novo serão mescladas a outras da carreira. "O show do Pato Fu sempre teve muito contraste, momentos de pular, chorar e dançar, é a nossa tônica ao vivo", diz Fernanda.
Passado e futuro
A influência do nascimento da pequena Nina, a filha do casal que completa quatro anos em outubro, foi negada pela banda em Toda Cura para Todo Mal, mas aparece claramente em Daqui pro Futuro. "Algumas canções têm a mão direta de ser pai e mãe, como Vagalume e Mamã Papá", assume Fernanda, quando indagada sobre o quanto a filha teria influído na atmosfera calma do disco. "Mas outras refletem nossos gostos mesmo e a idade avançada", comenta aos risos, referindo-se aos 41 anos de John e aos 36 anos que ela mesma completa dia 25 deste mês.
Daqui pro Futuro mantém o pop com referências eletrônicas e algumas experimentações que marcaram a personalidade do Pato Fu ao longo da carreira, mas não repete os registros anteriores. "A cada disco, a gente tenta oferecer para os ouvintes alguma coisa de novo, alguma graça, até para ter graça para a gente. Nesse momento, a sonoridade que mais nos interessa é essa mescla de coisas eletrônicas mais texturizadas, com músicos humanos tocando. Não é a pirotecnia digital, como a gente já fez, mas construir texturas musicais mais orgânicas, o que acaba sendo mais delicado", conta Fernanda.
Da tecnologia do estúdio, a banda tirou sonoridades antigas (como a de relógios) e simples, que sugerem a síntese entre passado e futuro buscada pelo grupo. A produção independente não muda a maneira de a banda se relacionar com suas músicas e discos, observa Fernanda. "Quando a gente lançou Toda Cura para Todo Mal, todo mundo falava que agora sim, por ser um disco independente, seria bem malucão. Mas veio pop. É do que a gente gosta, o Pato Fu é uma banda pop que vez por outra faz experimentações. Se eu fosse fazer um show-solo, iria cantar um pop grudento", diz.
Não é bem assim. O primeiro registro-solo da cantora será uma homenagem a Nara Leão, gravada à convite de Nelson Motta. Fernanda já deu uma amostra do que prepara no desfile do estilista Ronaldo Fraga para a São Paulo Fashion Week deste ano, inspirado na cantora que gravou de bossa nova à música de protesto.
Enquanto Fernanda não lança o disco com regravações do repertório de Nara (uma de suas cantoras preferidas, ao lado de Rita Lee, Clara Nunes e da musa-mor Suzanne Vega) e Daqui pro Futuro não chega às lojas "físicas", o Pato Fu já é um dos artistas mais vendidos por download pago. A aprovação do público vem para o disco que é, para Fernanda, o que melhor a representa. "Aos 15 anos de carreira, essa é a banda mais legal em que eu poderia estar. Não tenho saudade do Pato Fu antigo. Foi importante, mas hoje me sinto muito feliz", diz.



