Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
POP

Pato em evolução

Banda mineira lança o álbum independente Daqui pro Futuro para download pago pela internet

Volante Claiton é uma das novidades no time de Antônio Lopes. Furacão precisa vencer para respirar | Pedro Serápio / Gazeta do Povo / Arquivo
Volante Claiton é uma das novidades no time de Antônio Lopes. Furacão precisa vencer para respirar (Foto: Pedro Serápio / Gazeta do Povo / Arquivo)

Quinze anos depois de gravar a primeira demo, o Pato Fu quer provar que é possível viver de música independente. A experiência atual da banda no circuito fora das grandes gravadoras remonta ao primeiro álbum, Rotomusic de Liquidificapum, quando John Ulhoa ainda era o vocalista. Depois da estréia, a BMG se interessou pela banda mineira e a incorporou ao seu elenco.

O Pato Fu lançou seis discos sob a proteção da gravadora, conquistou um público fiel, mas nunca esteve entre os artistas mais vendidos. "Cuidar da parte artística sempre esteve totalmente nas nossas mãos. Ficávamos meio de lado, o que nos dava uma liberdade artística tremenda. Em compensação, não fazia muita diferença estar em uma grande gravadora", comenta a vocalista Fernanda Takai, em entrevista ao Caderno G.

O empurrão para voltar à carreira independente veio da EMI. O Pato Fu se preparava para assinar o contrato com a gravadora, quando um novo presidente assumiu e declarou que não queria mais a banda. "Era um sinal", diz Fernanda. "Essa relação entre artista e gravadora é cada vez menos necessária. Não digo para o pessoal muito novo, que precisa de visibilidade, mas para artistas mais conhecidos, com uma discografia significativa, é um passo essencial".

O oitavo disco da banda, Toda Cura para Todo Mal, de 2005, já havia sido gravado no estúdio da vocalista e do marido, John, mas a distribuição ficou por conta da BMG. Este ano, o Pato Fu se desligou por completo das gravadoras para lançar o novo trabalho, com o emblemático título Daqui pro Futuro.

As faixas do disco já estão à venda na Uol Megastore (http://megastore.uol.com.br/) e o registro em CD será lançado em 17 de agosto, de maneira independente, por um preço muito abaixo do praticado pelas gravadoras e suas superestruturas: R$ 9,90.

A independência, para Fernanda, "é uma evolução". "O Pato Fu talvez seja, agora, a maior banda independente do Brasil. Antes era a menor banda de major", compara. A vocalista diz que "dá gosto" ver como as bandas independentes sobrevivem em outros países, com a agenda de shows lotada de segunda a segunda.

No Brasil, o cenário é bem diferente. A turnê de Toda Cura para Todo Mal passou pelo interior paranaense, mas não veio à Curitiba. A banda também não conseguiu levar o show a Florianópolis, Fortaleza, Belém ou Recife. "O mercado de shows ficou tão cruel quanto o de rádio. Os produtores só fecham contrato com as dez bandas que mais vendem, não se interessam por bandas de médio porte, como é o Pato Fu", reclama.

Não há garantias de que o show de Daqui pro Futuro consiga viajar mais. "A gente tem um tamanho de banda difícil, não é nem grande, nem indie que vai sem ganhar cachê", explica a vocalista. Mas, vontade de tocar em Curitiba, segundo Fernanda, não falta. "Curitiba tem um público legal, que reclama porque parece que a banda está com birra da cidade, mas não é isso, são os vícios do mercado", diz ela.

Daqui pro Futuro é talvez o mais homogêneo dos discos do Pato Fu, e o mais calmo e delicado. Para levá-lo ao palco sem trair o "jeito Pato Fu" de tocar para o público, algumas canções do disco novo serão mescladas a outras da carreira. "O show do Pato Fu sempre teve muito contraste, momentos de pular, chorar e dançar, é a nossa tônica ao vivo", diz Fernanda.

Passado e futuro

A influência do nascimento da pequena Nina, a filha do casal que completa quatro anos em outubro, foi negada pela banda em Toda Cura para Todo Mal, mas aparece claramente em Daqui pro Futuro. "Algumas canções têm a mão direta de ser pai e mãe, como ‘Vagalume’ e ‘Mamã Papá’", assume Fernanda, quando indagada sobre o quanto a filha teria influído na atmosfera calma do disco. "Mas outras refletem nossos gostos mesmo e a idade avançada", comenta aos risos, referindo-se aos 41 anos de John e aos 36 anos que ela mesma completa dia 25 deste mês.

Daqui pro Futuro mantém o pop com referências eletrônicas e algumas experimentações que marcaram a personalidade do Pato Fu ao longo da carreira, mas não repete os registros anteriores. "A cada disco, a gente tenta oferecer para os ouvintes alguma coisa de novo, alguma graça, até para ter graça para a gente. Nesse momento, a sonoridade que mais nos interessa é essa mescla de coisas eletrônicas mais texturizadas, com músicos humanos tocando. Não é a pirotecnia digital, como a gente já fez, mas construir texturas musicais mais orgânicas, o que acaba sendo mais delicado", conta Fernanda.

Da tecnologia do estúdio, a banda tirou sonoridades antigas (como a de relógios) e simples, que sugerem a síntese entre passado e futuro buscada pelo grupo. A produção independente não muda a maneira de a banda se relacionar com suas músicas e discos, observa Fernanda. "Quando a gente lançou Toda Cura para Todo Mal, todo mundo falava que agora sim, por ser um disco independente, seria bem malucão. Mas veio pop. É do que a gente gosta, o Pato Fu é uma banda pop que vez por outra faz experimentações. Se eu fosse fazer um show-solo, iria cantar um pop grudento", diz.

Não é bem assim. O primeiro registro-solo da cantora será uma homenagem a Nara Leão, gravada à convite de Nelson Motta. Fernanda já deu uma amostra do que prepara no desfile do estilista Ronaldo Fraga para a São Paulo Fashion Week deste ano, inspirado na cantora que gravou de bossa nova à música de protesto.

Enquanto Fernanda não lança o disco com regravações do repertório de Nara (uma de suas cantoras preferidas, ao lado de Rita Lee, Clara Nunes e da musa-mor Suzanne Vega) e Daqui pro Futuro não chega às lojas "físicas", o Pato Fu já é um dos artistas mais vendidos por download pago. A aprovação do público vem para o disco que é, para Fernanda, o que melhor a representa. "Aos 15 anos de carreira, essa é a banda mais legal em que eu poderia estar. Não tenho saudade do Pato Fu antigo. Foi importante, mas hoje me sinto muito feliz", diz.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.