
O impacto da primeira cena de A Teta Assustada, de Claudia Llosa, serve de prenúncio para um filme que é inteiro perturbador. Uma mãe moribunda e a filha cantam juntas lamentos de uma dor originada da violência que sofreram durante a ditadura peruana. Após a morte da idosa, a garota Fausta (vivida por Magaly Solier), precisa se libertar do que o povo acredita ser o "mal da teta assustada", um medo paralisante transmitido pelo leite das mulheres que vivenciaram os anos de chumbo.
O longa, que ganhou este ano o Urso de Ouro do Festival de Berlim e os prêmios de melhor filme estrangeiro, direção e atriz no Festival de Cinema de Gramado, é forte, sem conter sequer uma cena de sexo ou violência. Usa a força da palavra e das metáforas para relacionar as questões íntimas de Fausta à realidade política de todo um país. Como ela, o povo peruano ainda não cicatrizou as feridas provocadas por um governo ditatorial.
A sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa contrabalança o peso de sua protagonista com cenas que expõem, de modo quase documental, a realização de casamentos na comunidade pobre da capital peruana onde Fausta vive. É impossível não rir com a breguice coreografada: em um momento, os noivos tiram fotos com a família em frente ao cartaz de uma paisagem tropical; em outro, partem o bolo cor-de-rosa do qual sai uma revoada de pombos.
Preste atenção no jogo de poder travado de forma musical entre Fausta e a patroa, uma pianista frustada, e na fotografia de constrastes assinada por Natasha Braier. GGGG1/2



