Para começo de conversa, o filme "Procura-se um Amor Que Goste de Cachorros", uma das estréias desta semana, fala de mulheres para mulheres. Ou ao menos essa é a intenção dos produtores que decidiram adaptar para o cinema o romance de Claire Cook, "Você Deve Amar os Cães" título mais fiel ao original, Must Love Dogs , recém-lançado no Brasil pela editora Best Seller.
Sarah Nolan (Diane Lane), mulher nos seus 40 e poucos anos, professora de primário enxuta, foi abandonada pelo marido, que a trocou por uma garota mais jovem. Sua família principalmente a irmã, Carol (Elizabeth Perkins) desdobra-se para arrumar um novo pretendente. Conhecidos, filhos de conhecidos e amigos de filhos de conhecidos têm suas fotos presas com ímãs na geladeira da divorciada. Mas ela, ao contrário do que pensa a maioria, não está preocupada em engatar outro relacionamento.
O desespero dos familiares chega ao ponto de a irmã criar um perfil falso na internet em um site que agencia encontros , ilustrado com uma foto de formatura e vendendo características que pouco têm a ver com a realidade, como "voluptuosa". Logo, surgem pretendentes de todo tipo.
Depois de várias tentativas frustradas por figuras improváveis o que chora o tempo todo, o que leva a filha de 14 anos ao encontro, o que não esconde a decepção com a idade de Sarah , ela conhece Jake Anderson (John Cusack). De príncipe encantando, ele só não tem o cavalo. É sensível, deprimido por um relacionamento que não deu certo levou o fora da mulher , assiste ao filme Doutor Jivago compulsivamente e constrói barcos a remo para competições esportivas. Até na profissão demonstra romantismo, pois insiste em construi-los em madeira, mesmo sem nunca ter vendido sequer uma unidade. "Todos preferem aquelas porcarias sintéticas", reclama.
O primeiro encontro acontece em um parque para cães ela, com o cachorro do irmão, ele, com o do amigo, conversam e combinam de sair. Daí em diante, surgem alguns supostos obstáculos (que não chegam a preocupar) até o final inevitável. Não é preciso ser um conhecedor profundo de cinema americano para deduzir que Sarah e Jake terminam juntos. O fim previsível faz parte do pacote "comédia romântica despretensiosa". O que importa mesmo é o caminho que leva ao desfecho este, sim, precisa surpreender de vez em quando para divertir.
O diretor do filme, Gary David Goldberg, é um escritor com experiência em seriados de tevê escreveu episódios de M*A*S*H, Caras e Caretas e Spin City (os dois últimos marcaram o início e o fim da carreira de Michael J. Fox). Ao adaptar o livro de Claire Cook, talvez tenha faltado a ele aquilo que uma diretora mulher teria a oferecer um olhar feminino. Com a missão de agradar ao maior número possível de mulheres, a produção parece moldada a partir de exibições-testes. Executivos apresentam o filme para um público selecionado e orquestram alterações a partir do que essas pessoas avaliam ao fim das sessões. O resultado é um roteiro capenga, incapaz de seduzir ou de criar um mínimo de expectativa. Não ofende ninguém, mas também não gera tipo algum de tensão.
A história é povoada por personagens definidos pelo estado civil: casados, solteiros e separados (há também os viúvos). Todas as outras características são secundárias. Sabe-se muito pouco da rotina de professora de Sarah ou da construção de barcos, no caso de Jake. Fica difícil se interessar por qualquer um deles.
Em "Procura-Se um Amor...", os clichês são tantos e tão mal utilizados que a sucessão de situações caminha direto para o tédio de quem está no lado de cá da tela. O filme tem crianças engraçadinhas, cães espertinhos e homens sem coração. Tudo meio solto, gratuito e desinteressante.
John Cusack, aparentando como nunca os seus quase 40 anos, e Diane Lane, condenada a fazer o papel da mulher madura de "Infidelidade" e "Sob o Sol da Toscana", são carismáticos, mas não há química entre eles. Existem formas melhores de se passar o tempo. E existem piores.



