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Poesia e crítica em Octavio Paz

Poesia- O Arco e a Lira -Octavio Paz. Cosac Naify, 352 págs., R$ 69 | Reprodução
Poesia- O Arco e a Lira -Octavio Paz. Cosac Naify, 352 págs., R$ 69 (Foto: Reprodução)

Se há um cerne, uma senda, comum, em maior ou menor grau, a todas as linguagens da Modernidade, é a metalinguagem, ou seja, a operação crítico-analítica que tem como fulcro a própria linguagem, seja ela verbal ou não-verbal. É essencialmente o campo da crítica. Mas, na Era Moderna, passaria a ser também o campo da criação. Ou seja, o campo de poetas, prosadores, pintores, compositores, cineastas, criadores enfim, que passariam a fazer do ato de criação em si a matéria-prima de suas artes. Criação e crítica intrinsecamente associadas, portanto.

Assim, o que se vê no amplo e complexo panorama da Modernidade são poéticas nas quais obras ditas "de criação" (poemas, ficções, pinturas, músicas, filmes, etc.) somam-se a outras ditas "de crítica" (ensaios, teses, manifestos, etc.) formando um todo que normalmente só pode ser devidamente absorvido quando tomado como uma somatória de sua partes. Destarte, fundamental é, para bem compreender, por exemplo, os Cantos de Ezra Pound, o seu ABC da Literatura, assim como para bem digerir o Jean Luc Godard de Acossado em diante é imprescindível a leitura dos ensaios publicados nos Cahiers du Cinéma pelo diretor francês, ou mesmo como essencial é a leitura dos Diários de Paul Klee para uma acurada fruição do abstracionismo do pintor suíço. Isso para, evidentemente, nos restringirmos a estes poucos – embora bastante significativos – exemplos de autores crítico-criativos da Modernidade.

Outros há, obviamente, em cujas obras este imbricamento crítico-criativo transparece com igual, ou quiçá ainda maior, clareza. É o caso do mexicano Octavio Paz (1914-1998). Poeta, ensaísta, tradutor e, last but not least, biógrafo (seu Sor Juana Inês de La Cruz o las Trampas de la Fé é uma inestimável biografia pessoal e intelectual da poeta-monja barroca sua conterrânea), Paz nos lega uma obra que é, a um só tempo, poética e metalinguística, sendo difícil estabelecer critérios para determinar quais das vertentes nela predomina.

Sua poesia oscila entre o surrealismo ("Piedra de Sol") e a metalinguagem ("Libertad Bajo Palabra"), com alguns laivos barroquistas ("Blanco"). Mas, em todos estes vieses – que, nas obras supracitadas, predominam, embora não excluam outros vieses, de menor, embora não menos importante teor ("Blanco", por exemplo, talvez a mais bem acabada das composições de Paz, conjuga também as outras três vertentes, quase em equilíbrio com o barroco predominante) – poder-se-ia dizer que a crítica está sempre presente.

Já no que tange à sua ensaística, El Arco e la Lira (O Arco e a Lira), cuja primeira edição data de 1955, e que a Cosac & Naify, como parte de uma parceria com o Fondo de Cultura Econômica, editora mexicana que detém os direitos de toda a obra de Paz, acaba de reeditar (há uma primeira edição, há muito esgotada) no Brasil, é um divisor de águas na poética do autor, tendo sido, pode-se dizer, a partir das premissas estéticas ali contidas que ele desencadearia suas principais obras, seja no terreno da crítica, seja no da poesia.

A obra prima pelo seu alcance, a um só tempo didático – começando por distinguir poesia de poema e, a partir daí, delineando as principais características da linguagem poética per se (não deixando, aqui, de estabelecer vínculos semióticos com outras linguagens, tais quais as plásticas e as musicais) – e diacrônico – retirando a pecha de conservadora que permeia a tradição poético-literária de uma forma geral, Paz, de uma forma tão inusitada quanto bem acabada e embasada, estabelece um vínculo entre esta e a Modernidade. Tal princípio, que viria a ser mais profundamente desenvolvido posteriormente, Los Hijos del Limo (1972), compêndio de palestras por ele apresentadas na Universidade de Harvard, vem a desembocar no que o autor viria chamar de Tradição de Ruptura. O que quer dizer ele com esta aparente (e só aparente) contradição? Quer dizer que, desde os primórdios, sempre houve, e sempre há de haver, o antigo e o moderno nas artes. Uma vez que o moderno (ou aquele que um dia o foi...) vem a ser sobrepujado por uma nova tendência, ele, moderno, passa a ser antigo. Esta tendência cíclica, segundo o poeta de Blanco, vincula a ruptura, ou seja, a vanguarda, à tradição. Este um dos conceitos basilares da crítica paziana.

Pode-se dizer que a obra de Octavio Paz – que, como já foi dito, tem em O Arco e a Lira, um momento fulcral – é uma obra metalinguística, e, portanto, moderna, par excellence. Sua ‘tradición de la ruptura’ aproxima-o do T.S. Eliot de Tradição e o Talento Individual, bem como do já citado Ezra Pound de ABC da Literatura.

Como bem disse, referindo-se à obra de Franz Kafka, Jorge Luis Borges, outro poeta-crítico como Paz, embora de distinta lavra, cada autor cria os seus precursores; ou seja, a partir de sua linguagem, ele remete seu leitor (este, também, necessariamente, um crítico) a autores de dicções similares, ou mesmo antagônicas – mas, ainda sim, de paralelos possíveis – à sua. E, em seus momentos mais altos (tais quais o do Paz aqui abordado) a modernidade levou, e, eu diria, continua a levar, tal premissa às últimas consequências. A arte da criação, para o autor moderno, é, pois, essencialmente, um ato crítico.

"Mas", perguntaria o leitor não-crítico, "e o resto?" "O resto", responderia o leitor-crítico, "é arte do entretenimento".

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