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Guimarães Rosa - 100 anos

Por que a gente morre para provar que viveu

"O menino fremia no acorçôo, alegre de se rir para si, confortavelzinho, com um jeito de folha a cair. A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária". O fragmento faz parte do conto "As Margens da Alegria", do livro Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. O escritor mineiro, nascido em Cordisburgo (MG) dia 27 de junho de 1908, também tem em crianças alguns de seus personagens. Ele mesmo, batizado João Guimarães Rosa, chamado pela família de Joãozito, poderia servir de modelo para algum personagem.

O retrato do artista enquanto criança revela um garoto com extremo interesse e igual facilidade para aprender línguas. A professora de Literatura Brasileira da UnB Elizabeth Hazin observa que o pequeno Guimarães Rosa começou a estudar francês e latim aos 6 anos. E seria apenas o começo para quem tinha uma sede inesgotável para entrar em contato com novas e, então, desconhecidas línguas. No futuro, conseguiria ler, por exemplo, em sueco, holandês, latim e grego. Estudaria, entre outras línguas, sânscrito, esperanto, tupi, hebraico, japonês, tcheco etc.

Em 1925, aos 16 anos, faria matrícula na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, e cinco anos depois estaria diplomado. Exerce a profissão no interior mineiro que, posteriormente, estará reprocessado literariamente nas páginas de seus livros. Em 1932, atua como voluntário na Força Pública durante a Revolução Constitucionalista. Ainda na década de 1930, prestaria concurso para o Itamarati.

O professor João Adolfo Hansen, da USP, recorda o que Rosa dizia a respeito do que as muitas atividades exercidas representaram para ele. "Rosa dizia que, por ter sido médico, tinha aprendido o valor do sofrimento. Depois, como soldado, o da disciplina. E ainda, como diplomata, o da sociabilidade", comenta.

O encantamento

Em meio à vida de diplomata, e deslocamentos por alguns pontos do mundo, Rosa iria escrever e publicar a sua obra. Debuta com os contos de Sagarana, em 1946. Dez anos depois, publicaria o seu único, porém monumental, romance Grande Sertão: Veredas. Entre a produção, destaque ainda para outros dois livros de contos, Primeiras Estórias, de 1962, e Tutaméia: Terceiras Estórias, de 1967.

O professor Marcelo Franz, da PUCPR, lembra do interesse de Rosa por temas místicos e metafísicos, o que está presente na ficção roseana. "Era uma procura por transcendência, outros valores, não apenas o que o olho alcança", comenta Franz.

E tal viés estaria presente até o final, sobretudo no fim da existência do grande autor mineiro. Rosa comentava, mesmo publicamente, que sentia que iria morrer se entrasse na Academia Brasileira de Letras (ABL). No discurso de posse, chegou a afirmar: "A gente morre é para provar que viveu." Três dias depois, em 19 de novembro de 1967, faleceu.

O fato de Machado de Assis ter falecido no mesmo ano em que nascia Guimarães Rosa, em 1908, faz com que muita gente, a professora Elizabeth Hazin, da UnB, por exemplo, recorrer à metáfora da "corrida do bastão". "É como se Machado, ao sair de cena, estivesse passando o bastão da excelência literária para Guimarães Rosa", opina. Mais misterioso não poderia ser. Nonada. Infinito.

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