
"Linha de Passe", novo longa de Walter Salles e Daniele Thomas, rendeu a Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes deste ano. O filme, que retrata a vida de uma mãe e seus quatro filhos que vão à busca de uma vida digna, estréia nesta sexta-feira nos cinemas paranaenses.
Além de "Linha de Passe", o circuito cinematográfico está recheado de filmes nacionais, que dominam quase todas as estréias da semana. O documentário "O Mistério do Samba" retrata uma longa pesquisa feita pela cantora Marisa Monte sobre a história da Portela. Já "Era Uma Vez..." fala sobre os dramas e abismos sociais na região da praia de Ipanema no Rio de Janeiro.
"A Via Láctea" e a comédia "Casa da Mãe Joana" são outros representantes nacionais, que dividem o páreo com a comédia romântica "Nem Por Cima do Meu Cadáver", estrelada por Paul Rudd ("Nunca é Tarde para Amar") e Eva Longoria Parker (a Gabrielle da série "Desperate Housewives").
Futebol para uma vida melhor
Em "Linha de Passe" (assista ao trailer), novo filme de Walter Salles e Daniele Thomas, uma mãe e quatro filhos que moram na periferia de São Paulo buscam melhorar de vida. Todos têm de tocar a bola sem deixar que ela escape de seu controle.
Dario (Vinicius de Oliveira, que estreou em "Central do Brasil", também de Salles) sonha ser jogador de futebol e tem talento para isso. Porém, se aproxima dos 18 anos e suas chances são cada vez mais limitadas.
Dinho (José Geraldo Rodrigues), evangélico, é frentista num posto de gasolina; Dênis (João Baldasserini), motoboy, não vê muitas perspectivas para o futuro; e Reginaldo (Kaique Jesus Santos), o caçula, é um menino negro em busca do pai, motorista de ônibus.
A mãe, Cleuza, é interpretada pela atriz de teatro Sandra Corveloni, que conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, desbancando a favorita Angelina Jolie. Novamente grávida, ela trabalha como doméstica, e é uma torcedora fanática do Corinthians. "Eu sou a mãe e o pai de vocês", costuma dizer.
A linha do tempo do filme acompanha as diversas peneiras pelas quais Dario passa, enquanto a vida dos membros da família cozinha em fogo brando. Todos com uma vontade de mudar, mas, aparentemente, sem poder de ação.Em sua terceira parceria, Salles e Daniela lançam um olhar carinhoso sobre uma parcela da população mais humilde. Eles já haviam trabalhado juntos em "Terra Estrangeira" (1996) e "O Primeiro Dia" (1998).
Sem fazer julgamentos ou manipulações, os diretores mostram vidas cujas opções são limitadas ou quase inexistentes. Não culpam a sociedade nem apresentam soluções.
Justa homenagem
O samba, gênero musical que nunca deixou de se renovar, recebeu uma emocionante e justa homenagem da cantora Marisa Monte no documentário "O Mistério do Samba" (assista ao trailer), dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda. O filme estréia nesta sexta-feira em Curitiba, no Unibanco Arteplex.
Com um gravador na mão e muita simpatia, Marisa percorreu as ruas de Oswaldo Cruz, bairro da zona norte carioca, para ouvir os veteranos sambistas que fizeram a história da Portela, a escola de samba que detém o maior número de títulos no Carnaval do Rio. O projeto foi iniciado em 1998, quando a cantora começou as pesquisas para a produção do CD "Tudo Azul", resgatando a obra musical dos compositores da Velha Guarda da Portela.
Durante quase dez anos, Marisa reuniu depoimentos de integrantes históricos da Velha Guarda, como Monarco, Argemiro, Jair do Cavaquinho, Aniceto, Antônio Rufino dos Reis, Casquinha e Casemiro da Cuíca. Também foram ouvidos portelenses mais jovens, mas, nem por isso, com história menos rica, como Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho.
Como uma pesquisadora dedicada, Marisa procurou familiares de vários sambistas já mortos e conseguiu encontrar letras e gravações em fita cassete de músicas inéditas, registradas no disco "Tudo Azul". Ela encontrou cerca de 100 músicas, quase todas inéditas, que corriam o risco de desaparecer.
Era uma vez...
Um drama pouco provável tenta dar forma à crítica feita em relação ao abismo entre classes sociais no longa "Era Uma Vez..." (assista ao trailer), dirigido por Breno Silveira que chega às telas da capital paranaense nesta sexta-feira (19). Um jovem morador de uma favela se apaixona por uma garota de classe média alta, e os dois tentam estabelecer um amor proibido não simplesmente por regras sociais, mas principalmente pela violência.
"Era Uma Vez..." demonstra duas histórias paralelas. De um lado, o conto de amor entre Nina (Vitória Frate) e Dé (Thiago Martins, de "Cidade de Deus"), a adolescente que mora em Ipanema, no Rio de Janeiro, e um jovem morador do morro do Cantagalo, que trabalha em um quiosque e vende cachorro-quente na beira da praia. Do outro, a sociedade paralela criada dentro dos morros cariocas, nos quais os jovens são instigados a entrar para o mundo da violência por vontade ou apenas por conseqüência.
"Moro no lugar mais bonito do mundo. O morro do Cantagalo, que fica no bairro mais rico do Rio de Janeiro", diz Dé logo no início do longa. Filho mais novo dentro de uma família de três irmãos, ele se mostra feliz com o que tem, apesar de assistir de arquibancada à vida da classe média carioca e os dramas vividos por seus irmãos mais velhos.
Com diálogos curtos, o roteiro tenta parecer natural, mas ao mesmo tempo, sugere uma situação superficial. A questão psicológica dos personagens e o processo que levou os jovens a se apaixonarem acontece com muita rapidez, e se faz necessário observar a "grande paisagem" a fim de entender a mensagem do longa.
Mãe Joana
O diretor Hugo Carvana apresenta sua mais recente comédia, "Casa da Mãe Joana" (assista ao trailer), que estréia em circuito nacional. A trama apresenta o cotidiano de quatro amigos, que não trabalham e vivem de pequenos golpes para manter seu apartamento, uma espécie de república de boêmios madurões. Nela moram Juca (José Wilker), o hippie tardio, PR (Paulo Betti), o sedutor de velhinhas, Montanha (Antonio Pedro Borges), o jornalista curtido no uísque, e Vavá (Pedro Cardoso), rapaz criado pelo trio desde pequeno, que se tornou um amoral.
Os problemas da trupe começam quando, depois de um trambique milionário, Vavá foge com o dinheiro, deixando os outros três na miséria. Não apenas ficam sem recursos para bancar a vida de ócio coletivo, mas também sem condições de quitar as dívidas do apartamento, o que levará a uma ordem de despejo. Não tarda muito para chegaram à conclusão de que precisarão trabalhar.
Em entrevistas, Hugo Carvana deu a entender que seu filme tem como ponto de partida lembranças de quando morava na juventude com três amigos no bairro do Leblon. O quarteto era formado por Miele (que faz uma participação especial), Daniel Filho (um dos produtores associados) e Roberto Maya (que também faz uma ponta). Assim, o filme seria uma espécie de especulação sobre o que aconteceria com os personagens na maturidade, recheado com humor.
Comédia
Escrita e dirigida por Jeff Lowell, a comédia "Nem por Cima do Meu Cadáver" (assista ao trailer) arma suas piadas em torno de uma noiva, Karen (Eva Longoria Parker, a Gabrielle da série "Desperate Housewives"), que está firmemente decidida a não deixar o noivo, Henry (Paul Rudd, "Nunca é Tarde para Amar"), ter uma nova vida. O filme entra em circuito nacional na sexta-feira.
Supercontroladora, Karen morreu durante os preparativos do casamento. Ela implica com o anjo de gelo entregue pelo escultor (Stephen Root), porque não tinha asas. No bate-boca com o homem, ela leva a pior. Acaba atropelada e morta. Henry, bom moço, fica inconsolável.
Ele não vê nada, mas a noiva-fantasma não desgruda dele. Assim, é por pura solidão que o rapaz finalmente aceita o conselho da irmã, Chloe (Lindsay Sloane), para consultar uma sensitiva. A irmã espera que ela convença Henry de que a noiva está bem na outra vida e saia da depressão.
A sensitiva, Ashley (Lake Bell, "Jogo de Amor em Las Vegas"), é meio picareta no quesito místico, mas bem bonitinha. Como Henry acredita pelo menos naquilo que vê, fica meio caído por ela. E vice-versa. Quando o namoro engrena, a noiva-fantasma resolve atormentar Ashley. Que, para seu azar, é mais médium do que até ela pensava e fica apavorada com as visões da morta.
Via Láctea
A diretora paulistana Lina Chamie, formada em música nos Estados Unidos, costuma sempre dedicar grande atenção à trilha sonora de seus filmes. Foi assim em seu longa de estréia, "Tônica Dominante" (2000), em que a música percorre todo o enredo do filme e interfere em seus sentimentos e histórias pessoais.
Isto se repete em seu segundo filme, "A Via Láctea" (assista ao trailer), que estréia nesta sexta-feira em Curitiba, depois de abrir a Semana da Crítica, uma das seções do festival de Cannes, em maio.
Neste novo trabalho, a trilha sonora inclui desde clássicos como Schubert, passando pelo pop e até melodias do desenho "Tom e Jerry". A maior parte do filme foi feita em digital, com uma pequena câmera, que permitiu que a diretora tivesse a agilidade necessária para transitar pelas ruas e capturar flagrantes.



















