
Nihonjin não é apenas uma história que alguém quis contar. Partiu de uma bandeira erguida pelo maringaense Oscar Nakasato, professor de Literatura e Linguagem, que, ao investigar, para seu doutorado, os personagens nipo-brasileiros na ficção, percebeu a quase inexistência deles. Quem irá contar sobre os dramas da nacionalidade dividida?
A partir dessa inquietação, de pesquisas entre imigrantes e, certamente, de sua experiência familiar, Nakasato conta neste, que é seu primeiro romance, a história de familiares e conhecidos que emigram juntos ao Brasil, em busca da ilusão do enriquecimento rápido para um retorno em melhores condições ao Japão.
Aqui chegando, vivem cada um dos choques culturais e geográficos que deram as "boas-vindas" ao vasto grupo de japoneses vindos na primeira metade do século 20. Ao longo do relato, entremeiam-se as impressões de cada um dos personagens e a rígida relação entre eles os castigos firmes, como o de expulsar o filho de casa por uma semana, ficam ainda mais duros no contraste com o explosivo mas caloroso relacionamentos dos colonos italianos do sítio ao lado.
Ao cobrir períodos extensos de tempo num romance curto, Nakasato nos mostra os japoneses empregados, depois arrendatários, depois donos de lojas no bairro da Liberdade, em São Paulo. Em cada um dos locais, o patriarca Hideo e sua prole enfrentam diferentes questões. Acabam sendo dramas demais para pouco desenvolvimento, como o da tia Sumie, que deixa os filhos e o marido por amor a um brasileiro.
Apesar de o narrador ser neto de Hideo, é um de seus filhos, Haruo, quem funciona como esteio da narrativa, encarnando a profunda crise de identidade entre ser nihonjin (japonês) ou gaijin (estrangeiro, no caso, brasileiro).
Como Haruo, Nakasato conta ter passado por conflitos na adolescência até aceitar e valorizar suas raízes. E como o narrador, ele se imagina num "retorno" ao Japão.
Imbuído do desejo de ver personagens tão familiares a sua família na literatura brasileira, o autor fez uma reunião de questões profundas que agora merecem um livro para cada relato.
Polêmica
No próximo dia 28 será revelada a identidade do famigerado "jurado C". Após a divulgação, em outubro, do resultado do Prêmio Jabuti deste ano, que coroou o romance de Nakasato, vazou a informação de que um dos três integrantes da banca teria baixado propositalmente notas de autores consagrados, como Ana Maria Machado e o curitibano Wilson Bueno, resultando na eleição de Nihonjin.




