
Quando esteve na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) no ano passado, o jornalista, escritor, tradutor e editor colombiano Héctor Abad comoveu os espectadores de uma mesa-redonda em que leu trechos de A Ausência Que Seremos, livro escrito por ele em 2006 e que havia acabado de ser lançado no Brasil. A obra é um retrato biográfico de seu pai, Héctor Abad Gómez (1921-1987), ativista assassinado por esquadrões da morte devido a sua militância pelos direitos humanos na Colômbia.
Em 1996, dez anos antes de reconstituir a heroica trajetória do pai, Abad já havia se inspirado em seu rico ambiente familiar para escrever outro livro. Único filho homem entre cinco irmãs, o escritor utilizou todo o conhecimento adquirido ao longo de décadas cercado diariamente por mulheres (com a mãe, somavam-se seis, ao todo) para compor os minicontos e crônicas de Livro de Receitas para Mulheres Tristes, lançado no Brasil no mês passado pela Companhia das Letras.
Descrita pelo próprio autor como um "falacioso ensaio de feitiçaria" e dedicada a suas "seis mães", a obra reúne receitas gastronômicas (das mais simples às mais complexas e surreais) e conselhos destinados a apaziguar diversas angústias femininas. De questões cotidianas incômodos da menstruação, desejos da gravidez, frigidez, mau hálito e constipação intestinal a conflitos mais sérios, como a solidão, o envelhecimento e o amor (ou a falta dele), Abad apresenta soluções carregadas de uma ironia sutil e um senso de humor elegante, sem desprezar a melancolia sem sentido que de vez em quando acomete as nascidas sob o sexo feminino.
Receitas
Já na abertura de seu compêndio de receitas, Abad revela não ter a fórmula da felicidade, mas propõe certas atitudes que podem ajudar no eterno processo de sua busca. Como, por exemplo, "jejujar nos dias de desgraça", pois o alimento, na infelicidade, não é assimilado e cria gordura. Para as tardes frias de chuva fina em que a ausência do amado parece insuportável, o escritor indica um concentrado chá de melissa, mas avisa: se a agonia persistir até o fim da tarde é porque ele não vai voltar e, caso volte, estará muito mudado.
Na posição de conselheiro, Abad não poupa nem seus semelhantes. Descreve os homens como "bêbados desenfreados ou desenfreados abstêmios", garante que "os moços mais bonitos ficam barrigudos antes do terceiro ano de casamento" e tenta explicar que o que os leva à traição não é a busca pelos melhores manjares e sim, "a curiosidade pelos pratos exóticos".
Já para as "mulheres tristes" referidas no título de seu livro, o colombiano não prescreve a alegria, pois sentir a tristeza, às vezes, é o único remédio: "só se você não se defender é que ela [a tristeza] fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima."



