
Jane Fonda passou por muita coisa em seus 55 anos de carreira: aluna de Lee Strasberg, foi de Barbarella (1968) a Amargo Regresso (1978), de modelo e musa fitness a ativista política, de menina dos olhos do cinema americano a atriz reclusa, aposentando-se precocemente por puro bode de Hollywood.
Uma década depois de voltar a atuar, a vencedora de dois Oscars acumula trabalhos como quem tenta compensar os 15 anos em que ficou afastada dos holofotes.
Nesta semana, está no Festival de Cannes, representada por Youth, novo filme de Paolo Sorrentino (vencedor do Oscar no ano passado por A Grande Beleza), que disputa a competição principal. Mas, antes disso, ao lado da amiga Lily Tomlin, Jane ressurge como a estrela da série Grace and Frankie, em cartaz no Netflix.
Após se despedir no ano passado da Leona Lansing de The Newsroom, que lhe rendeu indicação a dois Emmys, ela diz que a vantagem da nova produção, assinada pela criadora de Friends Marta Kauffman ao lado de Howard J. Morris, é ter a chance de viver uma personagem idosa, condizente com seus 77 anos.
“Estava querendo fazer uma série de tevê sobre uma mulher idosa já há alguns anos. Então quando Marta Kauffman apresentou o conceito para mim e para Lily, eu disse: ‘bingo!’”, conta Jane em entrevista por telefone. “Uma das razões pelas quais eu queria especificamente fazer uma série sobre mulheres idosas é porque somos a faixa demográfica que mais cresce no mundo. Além disso, os idosos estão vivendo mais, e a cultura e a mídia não costumam contar histórias sobre pessoas mais velhas. Mas eu sou uma idosa, quero ver a televisão falando sobre pessoas mais velhas, os tipos de problemas que enfrentamos, como nossas vidas são.”
Nos 13 episódios da série, Jane e Lily (de 75 anos) revisitam a parceria que viveram há mais de três décadas, quando estrelaram (com Dolly Parton), o clássico Como Eliminar Seu Chefe. Agora, elas dão vida às personagens-título da série, uma perua e a outra riponga, que descobrem que seus maridos têm um caso há 20 anos. Grace e Frankie, que nunca se suportaram, são obrigadas a se apoiar ao serem abandonadas pelos companheiros de uma vida inteira, vividos por Martin Sheen e Sam Waterston (este também de The Newsroom), ambos de 74 anos. Para Jane, ter um núcleo de protagonistas como esse é um alento.
“Queria mostrar a realidade de ser idoso, e não o estereótipo. Pessoas idosas têm vida sexual. Ok, não estou dizendo que todo idoso faz sexo, mas muitos continuam sexualmente ativos se assim eles escolhem. Acho muito marcante que dois homens, que se amam há 20 anos, nunca tenham tido a oportunidade de ser honestos sobre isso. Tudo por causa da homofobia na nossa sociedade. É muito corajoso que esses personagens, interpretados por Martin e Sam, possam finalmente dizer ‘isso é o que nós somos, e não podemos continuar escondendo isso’. É um tema muito bonito para abordar: mesmo quando se está velho você pode decidir quem você quer ser.”
E disso ela entende. Aos 53 anos, Jane resolveu largar uma bem-sucedida carreira. Só aos 67 ela decidiu que o show tinha que continuar, inspirada pela separação traumática do magnata das telecomunicações Ted Turner, em 2001, e por sua autobiografia, My Life So Far, lançada em 2005.
Valeu a pena.



