
Ao perceber a presença de uma câmera, a menininha põe a mão na cintura e sorri. A cena é corriqueira em uma sociedade em que câmeras fotográficas e filmadoras se tornaram acessórios tão indispensáveis para se ir a um evento quanto a bolsa ou o batom.
Pense num adolescente típico e você perceberá que é impossível imaginá-lo sem uma câmera de bolso para eternizar os momentos com os amigos e exercitar a própria vaidade, clicando a si mesmo, diante do espelho.
Quem já esteve no Museu do Louvre sabe como é difícil conquistar espaço entre os milhares de turistas que desejam conferir de perto o sorriso misterioso da Mona Lisa. Contemplar com tranquilidade a obra-prima de Leonardo Da Vinci? Desista. Tire logo a sua foto porque a fila anda e os "fotógrafos" atrás de você estão impacientes.
Basta olhar ao redor para perceber que a humanidade já não vê o mundo a olho nu, mas sob o enquadramento de câmeras fotográficas, filmadoras ou celulares que filmam e fazem fotos. "Em época recente, a fotografia se tornou um passatempo tão difundido quanto sexo e dança", escreveu a filósofa norte-americana Susan Sontag em seu livro Sobre a Fotografia, lançado em 1977.
A ânsia por representar, aprisionar e interpretar o mundo através das imagens levou a humanidade a uma relação tão intensa com as imagens a ponto de desacreditar a própria realidade. Você já deve ter ouvido, por exemplo, alguém dizer que "o acidente foi tão horrível que parecia um filme".
O filósofo checo Vilém Flusser explica, em seu livro Filosofia da Caixa Preta, que as imagens são mediações entre o homem e o mundo que nasceram com o propósito de serem "mapas", mas se tornaram "biombos". "O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função das imagens. Não mais decifra as cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como conjunto de cenas."
Com a chegada da tecnologia digital, no fim do século passado, esta perspectiva ganha amplitude. O pernambucano Marcelo Pedroso, diretor do longa-metragem Pacific (leia entrevista na página 2) lembra que, se antes pensávamos para fotografar, afinal comprar filmes e revelar custava caro, hoje tudo passa a ser registrável. "É como se a vida fosse então passível de se tornar um grande espetáculo, no qual podemos nos colocar em cena o tempo inteiro e agora como protagonistas de narrativas que nós mesmos produzimos", diz.
"Se, antes, numa viagem de férias, tirávamos 36 ou mesmo 72 fotos, agora tiramos facilmente 500. O que fazer com tantas imagens se muitas vezes sequer voltamos a elas depois? Me parece que o ato de fotografar ou filmar acaba se tornando às vezes um fim em si, quase como um exercício lúdico, mas que reverbera na construção de nossa identidade e até da autoestima", diz Pedroso.
Em Pacific, o diretor realiza um filme a partir de imagens cedidas pelos turistas que filmaram em um cruzeiro. São registros subjetivos feitos por pessoas que explicitam seu entusiasmo por estarem ali diante das câmeras. Há quem exiba a jacuzzi, a piscina e o cardápio liberado. Um deles encarna, com a namorada, a cena do filme Titanic em que Leonardo DiCaprio grita "Eu sou o rei do mundo!" na popa do navio. Um homem, enlaçado pela mulher, finge tocar a música ambiente no piano de cauda.
"Estamos sempre construindo personagens que determinam nossa inserção no mundo. Com as câmeras, passamos a ter soberania sobre essa representação, ao ponto de poder nos apresentar da maneira que quisermos", analisa Pedroso.
Vida espetacular
É o que acontece em reality shows como o Big Brother Brasil, exibido pela RPCTV, em que pessoas comuns são alçadas ao posto de celebridades ao interpretar a si mesmas exacerbando o que consideram ter de melhor: da simpatia e esperteza aos músculos e o bumbum.
"Quase sempre buscamos nos representar de forma feliz, de maneira a parecer realizados, bem-sucedidos, bonitos, bem-vestidos. Ou seja, espelhamos, de certa forma, os valores culturais e estéticos que acreditamos serem bons", diz Pedroso.
O pesquisador uruguaio Fernando Andacht, professor compartilhado da Universidade Tuiuti do Paraná, explica que o reality show coloca uma lente de aumento em determinadas características de cada um. "Eles sofrerão um processo midiático que exorbita o seu self habitual (seu comportamento no dia-a-dia), para gerar rastros que, selecionados, repetidos e montados, segundo as regras do gênero, produzem uma colagem desmesurada", escreve em artigo analisando a representação do real no BBB e no documentário Edifício Master, em que o diretor Eduardo Coutinho entrevista moradores de um edifício de classe média carioca.
A comparação entre um programa popular como o BBB e o filme de Coutinho pode parecer "uma heresia", como escreve Andacht. Mas, mesmo bem diferentes em suas propostas éticas e estéticas, as duas produções se aproximam ao mostrar pessoas comuns que, ativadas pela presença de câmeras, constroem personagens de si mesmas.
Em Edifício Master, Coutinho entrevista pessoas reais, não para mostrá-las exatamente como são no seu dia-a-dia, mas para buscar a "verdade do cinema", ou seja, algo que resulte unicamente daquele encontro intermediado pela câmera. "As pessoas se autorrepresentam especificamente para o filme", explica o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, autor do livro Eduardo Coutinho O Homem Que Caiu na Real.



