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Perfil

Reclusa e matreira

Cleyde Yáconis, aos 85 anos, interpreta sua quinta personagem intensa seguida: a sul-africana Helen Martins, de O Caminho para Meca, em cartaz no Rio de Janeiro. E dispensa o papel da velhinha sofrida

Orgulhosa de sua boa forma, Cleyde diz que tem vocação para motorista de caminhão | Antonio Milena/Agência Estado
Orgulhosa de sua boa forma, Cleyde diz que tem vocação para motorista de caminhão (Foto: Antonio Milena/Agência Estado)
Como Helen, artista que rompeu preceitos éticos e estéticos |

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Como Helen, artista que rompeu preceitos éticos e estéticos

Não foram as sete horas de estrada que fizeram com que Cleyde Yáconis pedisse que a conversa não se alongasse muito. É que ela se esquiva como pode de entrevistas. "Adoro estrada. Minha vocação é motorista de caminhão", diz a atriz de 85 anos, que tinha vindo naquele dia de Jordanésia (SP), onde mora, para o Rio, onde encena a partir desta sexta-feira O Caminho para Meca, com direção de Yara de Novaes e texto de Athol Fugard.

Ela não anda de avião e, até um ano e meio atrás, fazia questão de dirigir quando tinha de ir a São Paulo ou ao Rio. Agora, deixa para conduzir o carro em suas idas até Jundiaí, onde faz compras no supermercado e leva seus cães ao veterinário. Nas viagens mais longas, a tarefa fica a cargo de um motorista particular.

Cleyde vive no palco a sul-africana Helen Martins, que nasceu em 1897 e morreu em 1976. É a quinta personagem intensa seguida, depois de Karen Blixen (As Filhas de Lúcifer), Mary Tyrone (Longa Jornada de um Dia dentro da Noite), uma professora francesa (Cinema Éden) e Aurora (A Louca de Chaillot).

"São minhas cinco mulheres. Extraordinárias, mas diferentes. Se fosse possível, montaria uma em cada dia da semana: quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Helen vive numa pequena comunidade sul-africana. É bem integrada aos conservadores costumes locais. Até que abandona os cultos dominicais na igreja e, após ficar viúva, dedica-se à escultura. Mas suas obras e sua vida causam estranhamento nos demais moradores, que desejam que ela vá para um asilo."

Cleyde explica o que a atraiu na personagem: "Era uma mulherzinha comum, até que fica viúva aos 50 anos. É inexplicável como ela se tornou uma artista rompendo com todos os preceitos éticos, estéticos e morais, mesmo sem ter parâmetros artísticos de comparação. Seu estilo de vida também provocava desconforto. Ela não tomava banho, machucava as mãos ao trabalhar (as esculturas eram de cimento e vidro moído), deixou de frequentar a igreja e usava, por exemplo, uma saia feita com garrafas de cerveja."

Será que Cleyde, que também nunca se enquadrou nos padrões vigentes, identifica-se em alguns pontos com Helen? "Se ela parar de produzir, morre, que nem eu. E no asilo ela não poderia produzir. A Meca do título da peça é a criação, o trabalho dela. Cada um tem que encontrar a sua Meca e sua justificativa existencial. A minha Meca também é meu trabalho", diz uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos, que não teve filhos e evita qualquer tipo de publicidade.

Ela reconhece a fama de reclusa. "Sou muito fechada. Não gosto de festa, de multidão. Não me abro com facilidade, sou cuidadosa nos relacionamentos. Na minha carreira, não sei se recebi em casa dez, 11 amigos. Também não sei se fui à casa de dez."

Mas, quando se trata do verde, a relação é outra. "Tenho uma abertura total para a natureza, entrego-me para os pássaros, os gatos, os cachorros", diz ela, que vive num sítio a 28 quilômetros de São Paulo. Cleyde está à procura de um próximo personagem. Já recusou "quatro ou cinco". "Se não me pega, não faço. Não é o tamanho do papel, é se a peça vale a pena ser feita. Procuro textos que tenham alguma coisa para dizer." Ainda não encontrou.

"Não quero fazer uma velhinha triste e sufocando com o peso da desgraça. Sinto que quero uma coisa diferente, mas ainda não sei o que é." Por enquanto, ela trata de emocionar o público com Helen, que já passou por São Paulo e Belo Horizonte, e agora chega ao CCBB carioca. "A minha personagem tem uma empatia muito grande. Ela fascina, é sonsa, prepotente, doce e meiga, tem senso de humor, é frágil e é uma fortaleza. Faz chantagem emocional para ter carinho. É um caleidoscópio. Crianças de 12, 14 anos adoram a Helen. Ficam preocupadas com o fato de ela ter que ir para um asilo e me pedem depois: ‘Posso dar um beijinho?’"

Helen a fez lembrar-se do amigo Paulo Autran, que morreu ano retrasado. "Os últimos tempos foram horrorosos", diz, lembrando ainda de mortes como as de Carvalhinho e Nair Bello. "Isso bate. A Helen diz: ‘Estou no fim da minha Meca.’ Também tenho que assumir serenamente que estou caminhando para o fim da minha Meca. Não me apavoro, mas me força a tomar consciência. Paulo foi embora muito bem. Espero estar me fortalecendo para a partida. Atuante e sem temor do desconhecido. A chama tem que estar acesa".

E ela está sempre atuante. Há dois anos, fez a novela Eterna Magia. "Estou com vontade de fazer outra. Diverti-me bastante em Eterna Magia. É onde eu, que sou muito fechada, convivo com os outros atores".

Cleyde completa 60 anos de carreira em 2010, com a vitalidade habitual, mantida à base de alongamento, ginástica e musculação. Conserva há 50 anos o mesmo peso — 51, 52 quilos — em 1,60m. "Não faço regime. Tudo de que gosto não engorda", diz. Ano passado, numa entrevista, ela disse: "E a minha bunda não caiu, ainda é durinha". Ela pergunta, com um sorriso matreiro, ao repórter: "Você olhou?" Diante da negativa, diz: "Depois que eu levantar, dá uma olhada." Após ficar de pé, comenta: "Tá bom, não?", já sabendo que a resposta é positiva.

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Serviço

O Caminho para Meca. Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março 66, Centro, Rio de Janeiro), (21) 3808-2020. Quinta a domingo, às 19h30m. R$ 10. Até 12 de março.

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