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Refugiados na colônia

MON recebe quinta-feira obras de Taunay e Debret na exposição Missão Artística Francesa

Fãs adoram o "estilo" Amy Lee | Divulgação/Seven Shows
Fãs adoram o "estilo" Amy Lee (Foto: Divulgação/Seven Shows)

Em 1816, desembarcava no Rio de Janeiro um grupo de artistas franceses com o intuito de desenvolver as artes na nova sede do império português desde a vinda da família real em 1808, afugentada pelos avanços de Napoleão Bonaparte. A convite de dom João VI, os pintores Jean Baptiste-Debret e Nicolas Antoine Taunay, o escultor Auguste Marie Taunay, o arquiteto Grandjean de Montigny e o gravador de medalhas Charles-Simon Pradier se estabeleceram na corte tupiniquim liderados pelo intelectual Joachim Lebreton, partidário de Bonaparte que não mantinha boas relações com o novo rei francês, Luis XVIII, entronado após a queda de Napoleão na Batalha de Waterloo, em 1815.

O interesse de se manterem afastados da turbulenta Europa atraiu para o Brasil a corte real e a Missão Artística Francesa, como ficou conhecido o grupo de Lebreton, dando início a um período artístico frutífero no qual o rococó e o poderio clerical perdem espaço para o neoclássico trazido de além-mar e para uma classe burguesa abastada. A produção artística de então é resgatada na exposição Missão Artística Francesa, aberta para o público no Museu Oscar Niemeyer a partir de quinta-feira, dia 18 – antecipando as comemorações do bicentenário da transferência da família real portuguesa para a colônia brasileira.

A Missão – reforçada em 1817 pelo escultor Marc Ferrez e seu irmão, o gravador Zepherin Ferrez – foi a grande responsável pela formalização e profissionalização das artes brasileiras. O marco é a criação da Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), que, mais tarde, com a República, originaria a Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro. A AIBA, fundada em 1826, formou gerações de artistas brasileiros influenciados pelos preceitos formais e temáticos do estilo neoclássico, à semelhança de seus professores.

O mais famoso artista brasileiro dessa geração é Manoel de Araújo Porto Alegre, aluno predileto de Debret, que o acompanhou quando o francês voltou para a Europa em 1831, e colaborou com a criação de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, emblemático livro em que Debret retrata as personagens, cenas e paisagens que presenciou durante sua permanência por aqui. Taunay retornou à França ainda mais cedo, em 1821, mas deixou como seguidor o filho Félix Taunay, criador dos primeiros salões de arte do império e da premiação com viagens ao exterior para os alunos – intercâmbio enriquecedor para o desenvolvimento artístico da colônia.

As 77 obras expostas no MON vêm do acervo do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro. Cobrem, em três segmentos (leia o quadro), criações dos artistas da Missão trazidas da Europa como fonte de inspiração e realizadas em território brasileiro, as obras da primeira geração da Academia Imperial de Belas Artes e uma homenagem aos artistas da Missão e àqueles que possibilitaram a vinda dos franceses e a fundação da AIBA. "É uma espécie de repertório iconográfico desses personagens: retratos de Gradjean, Debret, Lebreton, um busto de d. João VI, outro do Conde de Barca e um do Taunay, em gesso, para as pessoas terem uma idéia de como era a aparência desses artistas e personagens que proporcionaram a Missão Artística Francesa", conta Pedro Xexéu, curador da exposição, ao lado de Marisa Guimarães e Laura Abril, todos também curadores do Museu Nacional.

"A Missão foi muito contestada durante o século 20, com o argumento de que os artistas franceses teriam desvirtuado o caminho natural da arte brasileira formulada no período colonial, ligada ao barroco, que para muitos críticos se adaptava melhor aos espírito brasileiro", relembra Xexéu.

O curador defende a Missão Francesa com a previsão de que a estética da época sofreria as mudanças de qualquer maneira, devido ao esgotamento do rococó e à chegada da corte. "A Igreja era a grande contratadora dos artistas, porque as pessoas não compravam obras de arte. O maior mestre barroco, Aleijadinho, morreu em 1814, havia uma exaustão da proposta barroca. A missão apressou o processo. A burguesia começou a consumir arte e não estava interessada em imagens de madeira religiosas, mas no moderno da época, que era o neoclássico.", argumenta. De acordo com o curador, a vinda dos franceses foi "uma missão quase civilizadora", por desenvolver também o gosto artístico dos que aqui viviam.

Missão Artística Francesa apresenta registros desse período decisivo da história colonial. Nas paisagens de Taunay e retratos de Debret, nas esculturas e gravuras sobrevivem crônicas da sociedade brasileira do início do século 19, para apreciação dos brasileiros de quase 200 anos depois.

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