
Num século que começou com duas grandes guerras, tem-se a impressão de que a negociação e os acordos via diplomacia foram aposentados em prol do conflito armado. Se não bastasse, as invasões do Iraque e do Afeganistão foram justificadas por meio de deturpações de regras internacionais, o que coloca em xeque a legitimidade da Organização das Nações Unidas (ONU).
Seria o fim da era da negociação e a vitória de um realismo selvagem nas relações internacionais, tese segundo a qual os países buscam seus interesses sem dar muita atenção a acordos?
Pelo contrário: o jogo diplomático está mais aquecido do que nunca. Afinal, "a guerra é a continuação da política por outros meios". Nunca a máxima do filósofo militar Carl von Clausewitz, proferida no início do século 19, foi tão atual.
"A diplomacia terá cada vez mais importância. Quanto mais guerra, mais conflito, que precisa ser negociado", resume o sociólogo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Gustavo Biscaia de Lacerda. "Durante a própria Guerra Fria, os Estados Unidos e a ex-União Soviética nunca deixaram de negociar", exemplifica. Para isso, utilizavam o famoso telefone vermelho, linha direta de telex satirizada no filme Dr. Fantástico Ou Como Eu Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar a Bomba.
Em uma cena do longa dirigido por Stanley Kubrick em 1964, o personagem Jack D. Ripper, general encastelado após detonar o temido conflito atômico, afirma que "a guerra é importante demais para ser deixada na mão de políticos", elevando o tom da sátira ao presidente dos EUA, retratado como um intelectual frágil que precisa tratar de amenidades ao telefone com seu infantil homólogo russo para conseguir convencê-lo a seguir seus conselhos militares.
Hoje as duas figuras, a do político e a do militar, se unem em um líder como o general norte-americano David Petraeus, recentemente encarregado do controle do combate afegão. Sua tática de ataque à milícia talebã é justamente a negociação com as bases inimigas.
Com isso, o governo do presidente Barack Obama tenta sair da enrascada iniciada pela administração de George W. Bush, que, "no que diz respeito à agenda de segurança, optou pela guerra em detrimento da diplomacia e da cooperação", lembra o professor de Relações Internacionais da UFPR Alexsandro Pereira.
A dificuldade de dar essa guinada tem rendido a Obama a pecha de continuista, tão egoísta quanto seu antecessor, que compete ao título de pior chefe de Estado de todos os tempos.
Já o atual ocupante da Casa Branca é conhecido por seu histórico de negociador desde jovem e se beneficia de algo que se poderia chamar de "acúmulo de habilidade" nessa área, que não é exclusividade sua. As décadas de negociação intensa desde a criação da ONU em 1945 serviram como uma escola. "Os negociadores hoje estão muito especializados, vão a todas as conferências, e, como já se conhecem, acaba sendo muito mais fácil saber como cada um pensa. Eles também criam laços de amizade, o que facilita a aproximação dos países com o passar do tempo", avalia o coordenador do curso de Relações Internacionais da UniCuritiba, Juliano Cortinhas.
Em questões pacíficas, com o meio-ambiente ainda que os chamados ecoterroristas façam seus ataques de vez em quando percebe-se a partir da conferência Eco 92, realizada no Rio de Janeiro, uma crescente disposição dos governos de interagir com novos atores, como ambientalistas, organizações não governamentais, defensores dos direitos humanos etc., que hoje ganham poder de pressão sobre a ONU e os próprios Estados.
"A agenda das negociações hoje está muito mais complexa, com atores não estatais trazendo seus assuntos para dentro do cotidiano", explica a professora de Relações Internacionais do mestrado em Ciência Política da UFPR Danielly Ramos. A participação desses "diplomatas extraoficiais" traz inclusive um enriquecimento para a qualidade da diplomacia, na opinião de Lacerda.
As próprias organizações internacionais das 80 abrigadas pelo guarda-chuva da ONU, por exemplo não só têm aberto novos foros de discussão, mas também desenvolvido formas de pressionar governos. "A Organização Mundial do Comércio, por exemplo, tem muita força de pressão por autorizar governos a agir de forma protecionista como forma de compensação", diz Danielly.
Já a Organização Internacional do Trabalho usa o public shaming: aponta as falhas de um Estado em sessões públicas. "Isso gera dificuldade aos países de impor seus interesses devido ao constrangimento, e eles acabam aceitando se adequar às normas internacionais", diz Cortinhas.
Se a cooperação é frequente, não se pode dizer que signifique amizade. "Mesmo cooperando, os países estão visando a defesa de seus interesses, como no caso do apoio do Brasil ao Irã", defende a coordenadora dos cursos de Ciência Política e Relações Internacionais da Uninter, Karla Gobo.



