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Revelação inesperada do ano

O ator austríaco Cristoph Waltz sente o gosto da glória em Bastardos Inglórios, no filme de Quentin Tarantino, que estreia em outubro no Brasil

Como o coronel nazista Hans Landa, do filme Bastardos Inglórios, Cristoph Waltz venceu o prêmio de melhor ator no último Festival de Cannes | Divulgação
Como o coronel nazista Hans Landa, do filme Bastardos Inglórios, Cristoph Waltz venceu o prêmio de melhor ator no último Festival de Cannes (Foto: Divulgação)
A atriz alemã Diane Kruger, Quentin Tarantino e Cristoph Waltz, em Cannes |

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A atriz alemã Diane Kruger, Quentin Tarantino e Cristoph Waltz, em Cannes

Nova York - Na última edição do Festival de Cannes, quando o ator austríaco Cristoph Waltz subiu ao palco para receber o prêmio de melhor ator por sua atuação como um coronel da SS (Schutzstaffel, em português, organização paramilitar ligada ao partido nazista alemão) em Bastardos Inglórios, ele dispensou a costumeira pompa da cerimônia com uma declaração direta e tocante. Com a voz engasgada de emoção, Waltz endereçou o discurso a seu diretor, Quention Tarantino, dizendo: "Você me devolveu minha vocação".

Na opinião de Tarantino, foi uma troca justa. "Ele nos devolveu nosso filme", diz o cineasta, numa recente entrevista pelo telefone da Australia.

Durante a coletiva de imprensa em Cannes, Tarantino insistiu que não teria feito o filme caso não tivesse encontrado o ator certo para interpretar o papel principal do coronel Hans Landa. Ele elabora melhor sua argumentação ao telefone: "Sabia que Landa era um dos melhores personagens que eu já havia escrito e, provavelmente, um dos melhores que escreverei."

Tarantino testou vários atores para o papel (que exigia fluência em alemão. inglês e frances). Mas, embora a maioria deles fosse perfeitamente competente, "eles não entendiam minha poesia", diz o diretor, "Literalmente, considerei a possibilidade de ter escrito um papel impossível de ser interpretado."

E apesar de soar como uma declaração empolgada vinda de um autor falastrão que não é conhecido por meias-palavras, existe a possibilidade de que o coronel Landa seja a melhor criação de Tarantino. Mais do que um excêntrico, trata-se de um multifacetado vilão de desenho animado: ele é um sádico genial, um interrogador educado, porém cruel, um poliglota extremamente articulado cuja destreza verbal é sua melhor arma. Brad Pitt, como o líder de uma brigada americana de exterminadores de nazistas, é o "Bastardo" principal e o nome que se lê nos letreiros, mas é Waltz, como muitos críticos notaram em Cannes, quem manda no filme.

Zumbis

A capacidade de Tarantino em reviver a carreira de atores moribundos não tem comparação entre os cineastas modernos. Grande parte de suas escolhas de elenco tem sido uma questão de colocar rostos familiares em papéis inusitados. Foi assim com John Travolta em Pulp Fiction – Tempo de Violência e Pam Grier (e Robert Forster) em Jackie Brown. Mas, aos 52 anos, Waltz, que fez o teste para o papel poucas horas após Tarantino ter dito a seus produtores que estava disposto a abandonar o projeto, é uma verdadeira descoberta, um ator que a muito vinha sendo ignorado dentro do cinema alemão e era um completo desconhecido para o resto do mundo.

E, na opinião de Waltz, a meia-idade não é exatamente um momento inadequado para experimentar uma reviravolta na carreira. "Ajuda o fato de ter experiência", disse ele, referindo-se a sua longa, porém pouco recompensadora carreira como ator na televisão alemã. Ele tem se familiarizado com sua recente popularidade e com os rumores de uma possível indicação ao Oscar que começou em Cannes e só tende a se intensificar nos próximos meses. "Não me atrapalha nem um pouco", assegura.

Waltz admite ter ficado inicialmente desconcertado pelo roteiro gigantesco de Tarantino, dividido em cinco capítulos e cheio de diálogos sinuosos e demorados que se contorcem por uma série intrincada de enganos, reversões e jogos mentais. "Fiquei completamente impressionado com o script, justamente por estar condicionado à estrutura básica de uma peça em três atos", diz. "E na minha frente eu tinha essa coisa que explode esse conceito em pedacinhos." Após uma pausa, ele acrescenta: "Adoro essa palavra: pedacinhos." (Não muito diferente de seu personagem Landa, Waltz parece saborear a musicalidade das palavras.)

Não demorou para que ele compreendesse a chave para a perspectiva de Tarantino. "Pergun­tava-me como é que ele conseguia passar por tantas camadas da realidade?, conta Waltz. E então ele pensou em uma analogia que po­­­de­­­ria ajudá-lo a entender melhor o problema (obviamente, de mesma forma que Landa raciocinaria): "É como o fóton (na física moderna, a partícula elementar responsável pelo fenômeno eletromagnético), como ele salta de uma realidade para a próxima. Portanto, eu o chamei de ‘Salto de Quentin’. É a ‘Física de Tarantino’".

Despretensioso

Pessoalmente, Waltz é bastante engraçado e completamente desprovido de qualquer pretensão artística. Não demora para que ele revele seu profundo ceticismo em relação à profissão. Questionado acerca de quando ele soube que queria atuar, Waltz rebate de pronto: "Ainda não sei se quero."

"A principal razão que leva alguém a querer ser ator é pura fixação." "O que é ótimo quando se tem 18 anos. Tornar-se ator é como tornar-se pai. Não é difícil ser um. Fazer disso sua vida é que se revela um desafio."

Nascido em Viena, Waltz pertence à quarta geração de uma família com sólida base teatral (seus pais eram cenógrafos, seus avós atores), e seu treinamento inicial foi "tradicionalmente vienense": ele estudou canto e ópera na Universidade de Música e Artes Performáticas da Áustria. No fim dos anos 70, mudou-se para Nova Iorque por um tempo e foi exposto aos ensinamentos de Lee Strasberg e Stella Adler.(Ele credita a técnica de interpretação de roteiro de Adler como base para sua abordagem indutiva.)

De volta a Europa ele encontrou trabalho estável no teatro em Zurique (Suiça) e na Alemanha – sobretudo em Colônia e Hamburgo –, antes de se mudar para Londres no fim dos anos 80 com sua esposa na época, uma nova-iorquina, e seus filhos – hoje em dia, mora principalmente em Berlim.

Em busca de um salário estável, Waltz focou em trabalhos televisivos. "É preciso ganhar a vida, sustentar a família", desabafa. "Mas de certo modo, você ainda quer dar o melhor de si, e sua frustração só tende a aumentar."

Ele apareceu em diversas produções de diretores respeitados, como Pole Krzysztof e o alemão Oskar Roehler. No entanto a maioria dos trabalhos era rotineira e pouco recompensadora. "Representar vilões foi o que adicionou alguma graça aos últimos anos", diz. "Antes disso fiz muitas comédias." E acrescenta, de maneira seca e direta, que "são poucos os filmes que eu não me envergonho de ter feito".

Politicamente incorreto

Em Cannes houve quem questionasse o tom de Bastardos Ingló­­rios, uma fantasia violentíssima sobre vingança que, como descreveu Tarantino sem esconder o entusiasmo durante sua coletiva de imprensa, usa do poder do cinema (e das propriedades inflamáveis do mesmo) para "acabar com o Terceiro Reich".

Waltz acrescenta, "Acho que ele está fazendo exatamente o que um artista deveria fazer, que é oferecer um ponto de vista alternativo em nosso mundo."

Presumidamente uma versão lunática da história, Bastardos Inglórios começa com a invocação dos contos de fadas: "Era uma vez... na França ocupada pelos Nazistas."

Mas Waltz afirma, "‘Era uma vez’ não significa que ele esteja di­­zendo para não levarmos o filme a sério, caso você já tenha lido The Uses of Enchantment (clássico estudo sobre estórias infantis escrito pelo psicanalista austríaco Bruno Bet­­telheim)". "A questão não é trans­­­­portar o mundo dos Nazistas para a esfera da fantasia", acrescenta, "mas para a esfera dos nossos desejos e medos inconscientes".

O ator só tem elogios para o modo com que Tarantino trabalha seus atores. "Tenho tentado analisar por que os atores geralmente saem-se melhor nos filmes de Quen­­­tin do que em outros filmes, e acho que é porque ele não os expõe à necessidade de atuar mal". diz. "Ele não explicita o efeito esperado ou lhe pede que demonstre motivações. O que torna mais fácil para o ator estar na posição do personagem."

Tarantino afirma que, à exceção de Uma Thurman, estrela de Pulp Fiction e dos dois Kill Bill, ele nunca havia trabalhado tão próximo a um ator. Waltz era um ilustre desconhecido para a maioria dos outros atores, e Tarantino explorou esse elemento-surpresa, en­­­saiando com ele as escondidas e até mesmo o instruindo que diminuísse o ritmo do personagem durante as leituras do roteiro em grupo.

O diretor diz que alguns jornalistas europeus têm lhe pedido que "proteja Christoph": "Um deles me disse ‘Não deixe que ele vire o vilão no próximo filme da série Duro de Matar’"

Se quisesse, Waltz poderia possivelmente iniciar uma lucrativa carreira interpretando vilões europeus em Hollywod. Mas. como ele mesmo coloca: "Estou disposto a trabalhar em qualquer lugar, mas não em qualquer filme." O ator agora tem um agente americano e atualmente está se decidindo entre três novos roteiros. "Essa é a me­­­lhor parte de tudo que tem acontecido: poder escolher."

Ao mesmo tempo, Waltz se dá conta de que ficou mal-acostumado com sua experiência em Bas­­tardos, a rara combinação de um diretor generoso e um papel interessante. "Essa é a Física de Quentin que eu lhe falava", diz Waltz. "Vai ser difícil retornar a Física Básica."

Tradução de Miguel Nicolau Abib Neto.

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