
O torcedor fanático de um esporte é muito exigente com o nível de detalhamento de obras que retratem o objeto de sua paixão, mas, no caso da Fórmula 1 (F-1), esse perfeccionismo dos fãs é tão forte quanto o dos pilotos que buscam cada milésimo de segundo para conseguirem a pole position.
Apenas dois filmes são considerados representativos para os apaixonados por automobilismo: Grand Prix (1966), com James Garner, e Le Mans (1971), com Steve McQueen, sobre a famosa prova de 24 horas de duração e aclamado por suas cenas realistas das corridas.
Agora, quatro décadas após este último clássico, os fãs podem incluir mais um filme em sua lista de favoritos. Rush No Limite da Emoção, que estreia hoje nos cinemas, agrada ao fã de velocidade, mas também entretem quem vai ao cinema atrás de uma boa história (veja o serviço completo no Guia Gazeta do Povo).
O longa retrata uma das temporadas mais dramáticas da história da F-1, quando o austríaco Niki Lauda e o inglês James Hunt batalharam ponto por ponto pelo título de campeão mundial de 1976.
Nos anos 1970, como define Lauda no próprio filme, havia uma chance de 20% de o piloto morrer a cada vez que entrava no carro. Não é exagero, e sim estatística de um personagem calculista: de 1970 a 1975, oito pilotos morreram em GPs ou testes da F-1.
Por isso, a cada interrupção no treino ou acidente durante a corrida, a tensão estava no ar Rush retrata com perfeição esse clima, mostrando a pressão psicológica e a fragilidade por trás da suposta áurea inabalável de herói do piloto. A reconstituição das cenas, incluindo a do dramático acidente de Lauda em Nurburgring (Alemanha), é impressionante. O austríaco viu a morte de perto, chegando inclusive a receber a extrema unção.
O que se passa após o acidente é um dos maiores méritos do filme. Para o fã de F-1, mesmo já sabendo como a história se encerrará na disputa de título, a narrativa é conduzida de forma sublime, sem se levar pelo lado fácil de tornar o calculista Lauda (Daniel Brühl) mais "humano" ou o "fútil" Hunt (Chris Hemsworth) como um vilão a ser combatido.
Ron Howard mostra a rivalidade de pilotos de personalidades tão distintas de maneira bastante equilibrada. Há momentos no filme em que você "torce" por Lauda, mas em outros você muda de lado e quer que Hunt se dê bem.
Para quem é fã de F-1, valeu a espera de 40 anos. Para quem não é apaixonado pelo esporte, as duas horas de filme podem ajudar a entender porque milhares de pessoas, em mais de 150 países, passam algumas horas assistindo a corridas a cada domingo. GGGG
Rodrigo França é colunista de F-1 da Gazeta do Povo.



