
São Paulo - Theo Angelopoulos mostrou em fevereiro, no Festival de Berlim, a segunda parte de sua trilogia dedicada a uma personagem mítica da cultura grega Eleni, ou Helena. Angelopoulos continua construindo os mais belos, lentos e longos planos de sequência do cinema. E ele ama os desafios seus planos contínuos envolvem complicados movimentos da câmera, combinados com verdadeiros balés de multidões. Até por isso, ele adquiriu a reputação de cineasta do tempo, mas se poderia acrescentar também da busca e do limite.
O Passo Suspenso da Cegonha, do começo dos anos 90, é quase uma súmula do autor. E a sua história é mínima. Todo o mistério se constrói na mise-en-scène, na inter-relação dos atores. Os protagonistas são Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, retomando a parceria de A Noite, de Michelangelo Antonioni, 30 anos antes. Gregory Carr faz um repórter de tevê que chega a uma cidadezinha de fronteira, em busca de um político que desapareceu com a mulher. Ele acredita havê-lo reconhecido, fugazmente, em meio a uma multidão de refugiados. Não acontece muita coisa a fronteira é o espaço do impasse, no qual as pessoas vivem entre o desespero e a esperança.
O político optou por sumir. Em seu último discurso, disse que era chegado o tempo do silêncio e, numa linguagem poética, acrescentou , para que se possa ouvir a música por trás do rumor da chuva.
Em Paisagem na Neblina, sua obra-prima, Angelopoulos filmou Orestes, que acompanha um casal de garotos na sua busca pelo pai, que vive numa Alemanha mítica. Em Um Olhar a Cada Dia e A Eternidade e um Dia, voltaram a fronteira e os refugiados. Em The Dust of Time, segunda parte da trilogia de Helena, iniciada com The Weeping Meadow, em 2004, um diretor norte-americano de origem grega volta-se para sua mãe, Eleni, que viveu refugiada na (antiga) URSS, distante do marido, que foi para os EUA.
A difícil reunião da família passa por fronteiras que não são só geográficas, mas interiores. Grande como é, Angelopoulos não é uma unanimidade. A crítica francesa o considera aborrecido. Diz que é pompier, bombeiro um artista que apaga a chama da arte e da revolução. Não entendem nada da tragicidade do exílio interno que consome os personagens de Theo, que, por sinal, em grego, quer dizer Deus. GGGG
Serviço
O Passo Suspenso da Cegonha. Grécia/França, 1991. Direção de Theo Angelopoulos. PLTF. Preço médio: R$ 19,90.



