
Afastada dos palcos desde que Morgue Story começou sua carreira cinematográfica, notavelmente bem-sucedida no reduto dos filmes de horror independentes, a Companhia Vigor Mortis retoma suas atividades teatrais com uma montagem sanguinolenta.
Corações arrancados, cérebros expostos. Uma cientista que extrapola os limites éticos de sua profissão e uma escritora que nem sequer os reconhece são personagens da peça Nervo Craniano Zero. Estreia da próxima quinta-feira (16), às 21 horas, no Teatro da Caixa.
O dramaturgo e diretor Paulo Biscaia volta a beber da fonte do Teatro do Grand Guignol (fundado em 1897, em Paris), célebre pelo entretenimento de horror. Cria uma trama criminosa, cujo objeto de cobiça é um artefato capaz de extinguir quaisquer crises de criatividade e que, de quebra, pode garantir a vida eterna. Mas não sem efeitos colaterais.
O texto foi escrito em 2007, para concorrer ao edital do Teatro Novelas Curitibanas. A companhia decidia o assunto de seu próximo trabalho, quando a atriz Rafaella Marques sugeriu o universo de um laboratório clandestino. Mas qual seria a trama? "Desesperado" com o tempo curto que tinha para cumprir o edital, Biscaia recorreu ao tema que pairava em sua mente: a dificuldade de escrever.
Inventou um chip indutor de descargas de dopamina que, implantado no cérebro, asseguraria surtos intensos e frequentes de inspiração. Seria a extinção absoluta das crises de criatividade. A personagem que o deseja, interpretada por Michelle Pucci (de Hitchcock Blonde), é uma escritora implacável que entrou para as listas dos mais vendidos, e não está disposta a perder a fama.
Inescrupulosa, procura os serviços de uma médica impedida legalmente de exercer sua profissão, como punição por ter usado o próprio marido como cobaia de uma experiência desastrosa. A atriz paulistana Simone Martins ganhou o papel, depois de passar por testes. Havia trabalhado com Gerald Thomas em quatro peças, feito assistência de direção para Antunes Filho e passado dois anos no Teatro du Soleil, na França. Mudou-se de São Paulo para Curitiba somente para atuar em Nervo Craniano Zero.
O nervo que nomeia a peça, no qual se poderia instalar o indutor de dopamina, talvez exista de fato. Biscaia buscava em livros de anatomia e na internet uma parte do corpo humano que abrisse brechas flexíveis para sua narrativa fantástica, e as estruturas no interior da caixa craniana exerceram especial atração por ser a cirurgia cerebral um elemento tradicional do Grand Guignol.
"Segundo alguns médicos, o nervo craniano zero existe, mas não se sabe para que serve. Uns acham que regula o olfato. Por conta dessa lacuna, pude fazer o que eu queria", disse o diretor, no intervalo do último ensaio realizado na sede da companhia, à Rua Inácio Lustosa.
Desde quinta-feira, a Vigor Mortis repassa as cenas no Ateliê de Criação Teatral (ACT), para onde a peça se mudará depois do fim de semana em cartaz no Teatro da Caixa.
Durante o processo de composição dos personagens, o diretor se concentrou em quebrar os moldes que as atrizes Michelle Pucci e Rafaella Marques traziam dos trabalhos que haviam feito com a companhia anteriormente. No caso de Rafaella, a parceria mais longa havia sedimentado um registro de voz que se repetia em novas montagens, mas já aparece revolvido nesta peça, no papel da garota interiorana sonhadora e pouco esperta, vítima fácil dos planos da escritora malévola.
Conduzidas por Biscaia, as atrizes buscaram um registro que beira a caricatura, adequado à narrativa que brinca com o melodrama, derrapando no folhetinesco para, na fala seguinte, desprezá-lo.
O humor macabro marca presença. A certa altura, com as mãos tingidas do líquido rubro que escorre da incisão feita para a retirada do coração de sua vítima, a escritora reclama: "E esse sangue todo?". Ao que ouve: "É uma pessoa, o que você esperava?"
Serviço
Nervo Craniano Zero. Teatro da Caixa (Rua Conselheiro Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Dias 16, 17 e 18, às 21h, e dia 19, às 19h. R$ 10 e R$ 5.




