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Teatro

Sangue, dopamina e inspiração

Cia. Vigor Mortis estreia nova trama ambientada em um laboratório clandestino. E colhe os louros do filme Morgue Story

Michelle Pucci, Rafaella Marques e Simone Martins: humor macabro | Divulgação
Michelle Pucci, Rafaella Marques e Simone Martins: humor macabro (Foto: Divulgação)
Garota pouco esperta é manipulada por uma escritora sádica e uma cientista fracassada em Nervo Craniano Zero |

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Garota pouco esperta é manipulada por uma escritora sádica e uma cientista fracassada em Nervo Craniano Zero

Afastada dos palcos desde que Mor­­gue Story começou sua carreira cinematográfica, notavelmente bem-sucedida no reduto dos filmes de horror independentes, a Companhia Vigor Mortis retoma suas atividades teatrais com uma montagem sanguinolenta.

Corações arrancados, cérebros expostos. Uma cientista que ex­­trapola os limites éticos de sua profissão e uma escritora que nem sequer os reconhece são personagens da peça Nervo Craniano Zero. Estreia da próxima quinta-feira (16), às 21 horas, no Teatro da Caixa.

O dramaturgo e diretor Paulo Biscaia volta a beber da fonte do Teatro do Grand Guignol (fundado em 1897, em Paris), célebre pelo entretenimento de horror. Cria uma trama criminosa, cujo objeto de cobiça é um artefato capaz de extinguir quaisquer crises de criatividade e que, de quebra, pode garantir a vida eterna. Mas não sem efeitos colaterais.

O texto foi escrito em 2007, para concorrer ao edital do Teatro Novelas Curitibanas. A companhia decidia o assunto de seu próximo trabalho, quando a atriz Ra­­faella Marques sugeriu o universo de um laboratório clandestino. Mas qual seria a trama? "Deses­­perado" com o tempo curto que tinha para cumprir o edital, Biscaia recorreu ao tema que pairava em sua mente: a dificuldade de escrever.

Inventou um chip indutor de descargas de dopamina que, im­­plantado no cérebro, asseguraria surtos intensos e frequentes de inspiração. Seria a extinção absoluta das crises de criatividade. A personagem que o deseja, interpretada por Michelle Pucci (de Hitchcock Blonde), é uma escritora implacável que entrou para as listas dos mais vendidos, e não está disposta a perder a fama.

Inescrupulosa, procura os serviços de uma médica impedida legalmente de exercer sua profissão, como punição por ter usado o próprio marido como cobaia de uma experiência desastrosa. A atriz paulistana Simone Martins ganhou o papel, depois de passar por testes. Havia trabalhado com Gerald Thomas em quatro peças, feito assistência de direção para Antunes Filho e passado dois anos no Teatro du Soleil, na França. Mudou-se de São Paulo para Curitiba somente para atuar em Nervo Craniano Zero.

O nervo que nomeia a peça, no qual se poderia instalar o indutor de dopamina, talvez exista de fato. Biscaia buscava em livros de anatomia e na internet uma parte do corpo humano que abrisse brechas flexíveis para sua narrativa fantástica, e as estruturas no interior da caixa craniana exerceram especial atração por ser a cirurgia cerebral um elemento tradicional do Grand Guignol.

"Segundo alguns médicos, o ner­­vo craniano zero existe, mas não se sabe para que serve. Uns acham que regula o olfato. Por conta dessa lacuna, pude fazer o que eu queria", disse o diretor, no intervalo do último ensaio realizado na sede da companhia, à Rua Inácio Lustosa.

Desde quinta-feira, a Vigor Mor­­tis repassa as cenas no Ateliê de Criação Teatral (ACT), para onde a peça se mudará depois do fim de semana em cartaz no Teatro da Caixa.

Durante o processo de composição dos personagens, o diretor se concentrou em quebrar os moldes que as atrizes Michelle Pucci e Rafaella Marques traziam dos trabalhos que haviam feito com a companhia anteriormente. No caso de Rafaella, a parceria mais longa havia sedimentado um registro de voz que se repetia em novas montagens, mas já aparece revolvido nesta peça, no papel da garota interiorana so­­nhadora e pouco esperta, vítima fácil dos planos da escritora malévola.

Conduzidas por Biscaia, as atrizes buscaram um registro que beira a caricatura, adequado à narrativa que brinca com o melodrama, derrapando no folhetinesco para, na fala seguinte, desprezá-lo.

O humor macabro marca presença. A certa altura, com as mãos tingidas do líquido rubro que escorre da incisão feita para a retirada do coração de sua vítima, a escritora reclama: "E esse sangue todo?". Ao que ouve: "É uma pessoa, o que você esperava?"

Serviço

Nervo Craniano Zero. Teatro da Caixa (Rua Conselheiro Laurindo, 280), (41) 2118-5111. Dias 16, 17 e 18, às 21h, e dia 19, às 19h. R$ 10 e R$ 5.

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