
Três espectros rondam a crítica literária brasileira desde que o mundo é mundo ou Charles Miller chegou ao Brasil com a primeira bola: a) não se fazem mais grandes escritores como antigamente; b) não há mais crítica literária no Brasil; e c) escritor brasileiro não sabe escrever sobre futebol.
Bem, focando no terceiro item, desde O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho, às coletâneas de crônicas de Nelson Rodrigues, como À Sombra de Chuteiras Imortais, o país teve alguns arroubos regulares em matéria de literatura de gramado não estamos a falar de território incógnito. Então, quando surge O Drible, de Sérgio Rodrigues, que concorre ao Portugal Telecom de 2014 na categoria Romance, podemos dizer se tratar do melhor livro contemporâneo sobre o tema, e que pode, definitivamente, retirar o fardo da classe operária-escritora de não saber narrar um de seus emblemas culturais.
Antes de mais nada, três momentos registram o livro de Rodrigues, também jornalista e crítico literário reconhecido, do blog Todoprosa, hospedado desde 2010 no portal da revista Veja, como um grande momento da literatura brasileira dos últimos tempos: o embate sobrenatural entre Pelé e Peralvo, "aquele que era para ter sido maior do que Pelé", em São Januário, a revelação do maior segredo da história do futebol e a descrição do lance entre Pelé e o goleiro uruguaio Mazurkiewicz, na semifinal da Copa do Mundo de 1970.
"Na sua recusa em tocar a bola feito um Bartleby súbito, diz, Pelé refinou o futebol à sua essência mais rarefeita. O futebol virou ideia pura e de repente homens, bola, ninguém mais se comportava como seria de esperar que se comportasse neste mundo vão. Apanhado de surpresa como todos nós, o pobre Mazurka vê a bola passar à sua esquerda e ir cortar feito faca o filé direito da grande área, enquanto Pelé é um flash auriceleste que chispa para o lado oposto". A narrativa dos movimentos extraordinários do Rei segue até o momento em que a bola caprichosamente sai. "Pelé desafiou Deus e perdeu."
Aula narrativa
A obra de Rodrigues não é apenas um apanhado de ótimos momentos de partidas, mas também um resgate de personagens do imaginário cultural brasileiro, como Nelson Rodrigues, Mario Filho, Millôr Fernandes e o Barão de Itararé, todos emulados para dar contorno e dimensão ao pai de Neto, Murilo Filho, um famoso cronista esportivo à beira da morte, o "nosso Charles Dickens". Também não falta espaço para um Tripa e um Perna, que trazem o livro a uma dimensão ainda mais humana, do futebol enquanto representação existencial.
Em um segundo plano, não menos potente, a obra trata da vida medíocre de Neto e das incomunicações com seu pai, responsável por um episódio aterrador em sua juventude, tudo numa fluência incrível. Aclamado pela crítica, O Drible é melancólico e lírico, capaz de frases como "O pop não tem história, só revival", e "A televisão é um veículo desprovido de imaginação". Antes do fim da resenha, que, a muito custo, não se referiu ao excelente livro de Rodrigues como golaço ou gol de placa, fica a certeza de que o trabalho contém mesmo o maior segredo da história do futebol mundial. "Não é o pior pedaço. É a vida. O jogo normal."




