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Entrevista

Silvio Tendler

Há alguma explicação para o grande interesse do público atualmente pelo documentário, seja no Brasil ou no mundo?

Existe uma faixa de público cansada desse filmes suntuosos que não dizem nada, que vêm do "império" (EUA e Hollywwod). Nós, documentaristas, não somos muitos, mas somos bons. (risos) Falamos da realidade para gente que quer assistir a realidade. Isso explica um pouco a quantidade de documentários que existem em circulação atualmente. Mas também não podemos negar a importância das novas tecnologias, que baratearam muito o custo de produção e tornaram o cinema muito mais acessível às pessoas. Essa explosão do documentário é muito mais uma explosão de produção documental do que do público do gênero. O público nunca negou fogo para o documentário. Eu mesmo tenho filmes dos anos 80 que conseguiram muitos espectadores: 600 mil com Os Anos JK; oficialmente 800 mil com Jango, mas foi muito mais; 1,7 milhão de O Mundo Mágico dos Trapalhões. Hoje, nossa dificuldade não é produzir, mas exibir – são os famosos gargalos da distribuição e da mídia.

E como desatar esse nó?

Isso pode ser resolvido se forem mudados os parâmetros do julgamento do que é o público de cinema. Por que só considerar público do cinema brasileiro aquele que freqüenta as salas nos shoppings da elite? Por que não posso ampliar meu espectro de público para as sessões em ciniclubes, comunidades, sindicatos, tevês comunitárias, tevês pagas e abertas? Há toda uma gama de espaços de exibição que não são contemplados na análise de público de filme.

Antigamente, havia cinemas em todo Brasil, mas hoje em dia, tudo está muito elitizado na área, e a sociedade também não está mais tão motivada em relação ao cinema. É preciso mudar esses parâmetros de que cinema bom é aquele que vende ingresso. Quase nenhum filme brasileiro se paga com bilheteria. Defendo uma ligação com o Ministério da Educação (MEC), para que ele tenha uma participação expressiva na difusão do cinema brasileiro. Da mesma maneira que o MEC compra livros para distribuir nas escolas, por que não compra DVDs também, para formar professores, estudantes? Desde crianças, não somos acostumados ao cinema e à cultura brasileira. Temos que chamar essa parceria do MEC para formação de platéia para a cultura do país. Cultura e educação não estão dissociadas.

Hoje, há toda uma nova geração de documentaristas no Brasil. Tem contato com esses novos cineastas?

Sim, inclusive com muitos da periferia, que têm feito muito cinema digital. Tenho visto filmes maravilhosos desse pessoal e retrato isso no documentário do Milton Santos, que falava que o novo estava nascendo da periferia, dos pobres nas grandes cidades. A minha geração foi feita para conquistar os espaços na grande mídia. E não nego que isso continue sendo algo importante, pois dá visibilidade, cria um espaço de debate na sociedade. Mas essa geração dos jovens autores se contenta em fazer sucesso apenas dentro do seu próprio grupo. No Rio de Janeiro, há muitas ações de cinema alternativo, com festas, cineclubes, que atingem os grupos de baixa renda. Na realidade, o espaço perdido nos shoppings tem sido reocupado de outra forma, em outros circuitos. Gosto muito de dar cursos ao pessoal da periferia, tenho viajado muito pelo Brasil fazendo essa atividade. É nesses cursos que estão as pessoas mais interessadas e nos quais aprendo mais. Longe dos grandes centros cinematográficos, longe da elites, há um interesse, uma reflexão do cinema como ponto de partidas das coisas.

Sua obra completa está sendo passada toda para DVD. Fale como está sendo esse projeto.

Os filmes estão sendo remasterizados, estamos fazendo uma série de extras. Conseguimos um recurso com o governo do estado Rio de Janeiro para trabalhar apenas um dos filmes, mas que está rendendo para recuperar todos. Os primeiros a serem lançados serão Os Anos JK e Jango, em março de 2007. Depois o Castro Alves, e, em seguida, os médias. O Glauber não, porque não tenho os direitos do filme, que são da Rio Filmes, que lançou recentemente o documentário em DVD.

Já está trabalhando em um novo projeto?

Meu próximo filme será o longa-metragem Utopia e Barbárie, que devo finalizar no ano que vem, um projeto no qual trabalho há 14 anos (já fez um média sobre o tema). Devo lançá-lo em 2008, quando se completam os 40 anos de 1968 (emblemático ano da revolta estudantil na Europa e do AI-5 no Brasil). É um filme feito por alguém que tinha 18 anos em 68, uma releitura da história do século 20, mas sempre com o olhar voltado para o futuro, nunca para o passado. Não faço releitura nostálgica da história, mas uma releitura voltada para a construção do futuro.

E como vê o futuro da cultura no país com a continuidade de Lula no governo?

Estou vendo com otimismo. O Brasil está mudando bastante e hoje existe uma compreensão da importância do cinema, do audiovisual. Defino o documentário do Milton Santos como um confronto necessário, porque acho que estamos precisando sacudir a opinião pública, e acho que o cinema é, sim, um instrumento de ação política para isso. Hoje, existe a compreensão da importância do estado, que deve alavancar a indústria do audiovisual nacional, pois essa é a única forma de fazer frente ao "império".

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O repórter viajou a convite do Festival de Brasília.

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