
Paulínia (SP) - Eduardo Coutinho tinha razão de andar de um lado para o outro, nervoso, enquanto o produtor executivo da Videofilmes, Maurício Andrade Ramos, apresentava o documentário Moscou ao público do segundo Festival Paulínia de Cinema, na noite da última terça-feira (14). "Ganhamos Coutinho na virada do século, com a realização de Babilônia 2000", disse o produtor.
Desde então, o cineasta, dono de 11 longas-metragens e considerado o maior documentarista brasileiro, já realizou outros cinco filmes em parceria com a produtora dos irmãos João Moreira e Walter Salles, entre eles, Edifício Master, O Fim e o Princípio e Jogo de Cena. Este último inaugura uma nova fase na trajetória do diretor, que teria continuação em Moscou.
"Foi um processo muito penoso. Nem sei por que fiz esse filme, ainda estou pensando", declarou Coutinho com sua voz rouca de fumante, receoso da recepção do público. Como sempre costuma fazer, ele deixou a suntuosa sala do Theatro Municipal e esperou o filme ser exibido do lado de fora, fumando um cigarro após o outro. Mas, desta vez, havia motivos a mais para sua ansiedade.
O documentarista septuagenário apresentava ao público um filme difícil, fragmentado, que usa o teatro de Chekhov para tratar de questões relacionadas ao próprio cinema. "Queria agradecer a Chekhov, ele não tem culpa do que fiz", disse um autoirônico Coutinho.
"Jogo de Cena pode sido visto por um analfabeto e ser compreendido. Moscou já é mais limitante", diz Coutinho. Sem querer fazer um filme para especialistas, desta vez ele lida com questões que exigem algum conhecimento sobre teatro. "Quem vê só cinema se desagrada. Se bem que quem gosta de documentário já é meio doente. E quem é este público no Brasil, dez mil pessoas?", lamenta.
O filme de 78 minutos registra "lampejos" do processo de montagem da peça As Três Irmãs, de Anton Chekhov, feita a convite do cineasta pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte, em apenas duas semanas. Foram dias sofridos para Coutinho, que, sempre disposto a desafios, decidiu se inserir de uma nova maneira no set de filmagem. Deixava o diretor Enrique Diaz dirigir os atores, limitando-se a filmar e a fazer poucas intervenções. "Foi uma situação estranha, perdi o controle da situação. Pensava: o que estou fazendo aqui, no meio de uma encenação?."
O pior ainda estava por vir. Na sala de montagem, diante de 70 horas de imagens, Coutinho viu-se em pleno inferno. As pessoas lhe diziam: "Aqui não tem filme". Até que João Moreira Salles o salvou ao proclamar: "Aqui tem filme". "Ele me disse que não interessava contar a história inteira da peça, o teatro filmado é insuportável", lembra Coutinho.
O amigo produtor, a quem Coutinho dedica o filme, clareou os propósitos do diretor, perdidos em meio a tantos subtextos propostos pela narrativa. As 70 horas foram enxugadas impiedosamente, e mesmo alguns atores do Galpão tiveram que ser limados. "Tínhamos que ter noção de síntese e fragmento", conta.
Estão presentes em Moscou, de forma diluída, questões que sempre fizeram partes das "obsessões" do autor. "É um filme em camadas. Muitas pessoas que já viram encontram coisas em que eu não tinha pensado", diz. Há o acaso, "mãe de todos os filmes que eu faço", sob a forma de imagens feitas pelo câmera à revelia do diretor e que depois seriam "descobertas".
A principal delas, no entanto, é a discussão sobre o que é representação e o que é realidade. Para Coutinho, não interessa saber se seus personagens estão dizendo a verdade. Diante das câmeras e contadas de forma convincente, suas histórias são sempre verdadeiras. "Cada vez mais eu não quero fazer um filme sobre pessoas, sobre temas. Me interessa o que acontece diante da câmera."
A jornalista viajou a convite do Festival Paulínia de Cinema.



