
Com o cafezinho na mão, seu Alfredo entrou na livraria de um shopping de Maringá. Um banner gigantesco chamou a atenção dele. Naquela mesma semana, seria lançado o livro de um autor maringaense, cuja capa, de cor vermelha e letras grandes, trazia a suástica estampada. Tratava-se de O Evangelho Segundo Hitler, de Marcos Peres. Tomado por uma indignação momentânea, ele se aproximou de funcionários e começou a criticar a postura da livraria. Era inadmissível aquele estabelecimento familiar fazer uso de uma obra que apoiasse o nazismo.
Seu Alfredo é um personagem fictício, mas a história é real. Foi apenas uma das inúmeras repercussões que a obra do maringaense Marcos Peres enfrentou desde que chegou às livrarias. Graças ao nome forte, o escritor já foi até taxado de ateu e nazista. Na Feira do Livro de Passo Fundo (RS), evento do qual participou recentemente, Peres teve até o feedback do cantor e escritor Humberto Gessinger.
"Ele pegou o livro, olhou para mim e disse que achou bem bacana, que tinha visto exposto em um lugar bem chamativo. Mas perguntou várias vezes se eu era mesmo o autor", lembrou Peres, aos risos. "Esperava um cara barbudo, velho, ou um nazista mesmo. Não deve ter botado fé em mim."
Com O Evangelho Segundo Hitler, ele faturou o Prêmio Sesc de Literatura e, de quebra, a publicação pela Editora Record. Em Maringá, o livro foi lançado ontem. A reportagem conversou com o escritor, que, além de comentar o romance, adiantou o próximo projeto.
Sobre a repercussão do livro, qual foi a opinião que considerou a mais absurda?
Muitos falaram que precisava ter a ciência de que o nome do livro pode afastar o leitor. Nunca me preocupei com isso. Apenas pensei que os leitores poderiam pensar que sou ateu ou nazista. Não sou. Tive a preocupação de me justificar logo no prefácio do livro. Tenho familiares ligados ao catolicismo, então não queriam que eles passassem por um constrangimento inútil. Um menino citou [no Twitter] que pegou o livro, mas foi repreendido pelo pai, dizendo para ele largar de ser nazista.
Fãs de O Código da Vinci e do autor Dan Brown falam que sua literatura é totalmente conspiratória. O que você pensa a respeito disso?
Tenho um pé atrás com o Dan Brown pela maneira como ele apresenta as teorias conspiratórias. Sempre fui fã de Umberto Eco, principalmente da obra O Pêndulo de Foucault. Ele é estudioso em simbologia e Idade Média e, nessa obra, constrói uma teoria conspiratória como uma brincadeira àqueles que criam teorias conspiratórias. Interessante é que o Umberto Eco é anterior a Dan Brown e cria assuntos polêmicos que ele mesmo destrói no final do livro, tentando dizer ao leitor que é preciso lançar um olhar crítico sobre a obra. O Dan Brown faz o contrário. Apresenta a teoria e não quer o olhar crítico, mas, sim, que os leitores acreditem nele. Se tenho um modelo de inspiração, é o Eco.
Como surgiu a ideia de O Evangelho Segundo Hitler?
Queria construir uma teoria e a ideia surgiu de um conto do Jorge Luís Borges que se chama "Três Versões de Judas". Ele coloca três versões diferentes que a sociedade tem sobre Judas. São três páginas com pancadas. Ele é bem sucinto. O Judas veio do cerne. Fui juntando meu quebra-cabeças. Queria que o Borges fosse um personagem, porque é um terreno seguro. Sou leitor do Borges. Poderia pisar com firmeza nesse assunto. Sei da vida dele. Era alguém real que poderia usar como personagem do livro. Pensei em contemporâneos. Lembrei do Hitler e sei que a Segunda Guerra é um assunto que vende. Pensei em assuntos ligados à religião e tive o estalo: juntar tudo no Evangelho Segundo Hitler.
Como surgiram os cenários e os panoramas dos locais da história?
Gosto de escrever sobre Maringá. Tenho muitos contos. É uma coisa que conheço, então acho interessante escrever sobre. É uma sugestão para outros autores: escrever sobre um terreno seguro. É preciso conhecer a geografia do local. Para fazer as pessoas acreditarem em você, é preciso acreditar em si mesmo. No Evangelho..., escrevi sobre a Alemanha, Argentina e a Suíça. Nos dois países europeus, nunca morei, então tive certa dificuldade. Uma coisa que me ajudou foi o Google Maps. Vi o local onde Borges morava, em Genebra. No livro, quando o protagonista [que tem o mesmo nome de Borges] chega ao aeroporto de Genebra, ele pede um táxi para ir à casa de Borges [o escritor, que também é um personagem do livro]. Digitei no Google o traçado e coloquei o trajeto no meu manuscrito. Isso não foi para o livro, mas tentei conhecer, mesmo virtualmente, o terreno em que estava pisando. A Argentina já conhecia. O hotel do livro é o hotel onde fiquei hospedado, por exemplo.
Como você descobriu a obra de Borges?
Veio através do Umberto Eco, que, em algum momento, cita o Borges. O Eco é erudito. Cita aqui e cita ali. Quando li o primeiro conto do Borges, até fiquei meio decepcionado. O Eco era aquela paulada, com 500 ou 600 páginas, ações e teorias conspiratórias, mas o Borges tinha seis páginas e 2 mil caracteres. Mas logo percebi que ele necessita de um leitor apurado e que muitos contos dele são moldes para um escritor. Gosto muito também do Saramago, Gabriel García Márquez, Guimarães Rosa e Machado de Assis.
No início do livro, duas mulheres em um avião citam Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski. Você se inspirou nesse livro também para escrever O Evangelho Segundo Hitler?
É um livro de cabeceira, de formação. Cito no livro o protagonista de Crime e Castigo [Raskólnikov] em muitos momentos. O meu Borges [protagonista] é arrogante. É um escritor fracassado que acha que não é compreendido pelo mundo. Ele acha que a ideia de mostrar a vingança no começo de um livro é sensacional e pensa que outros vão achar que isso já existe, pois Crime e Castigo tem essa estrutura. Mas a morte de Crime e Castigo não é uma vingança, apenas uma morte que acontece no início do livro. Gosto muito de citar o que realmente mexe comigo. Acho que é uma espécie de homenagem. Se está citado no livro é porque gosto muito daquilo.
Existem rumores de que você quer levar O Evangelho... para a Feira do Livro de Frankfurt, que terá como tema o Brasil. É verdade?
Desde o princípio tenho o interesse, sim, porque o livro é bem comercial, desde a capa até o título e por tudo o que representa e todo o contexto da obra. Acredito que tenha um mercado fora do país. Sem querer ser pretensioso, claro. Mantenho contato com agentes e escritores mais tarimbados, mas não existe nada concreto. Vislumbro uma oportunidade grande lá, pelo tema ser o Brasil e o tema do livro envolver Hitler e falar da Alemanha. Vontade, tenho, mas não existe nada concreto ainda.
Como é ser um escritor em Maringá?
Um aspecto negativo é estar em Maringá. Consigo uma mídia local grande, o livro está vendendo bem, mas estou fora do eixo. Muitas vezes, o Sesc e a Record enviam e-mail falando para divulgar o livro em certos eventos, mas não posso. Tenho trabalho e outros compromissos. Se fosse em São Paulo ou no Rio de Janeiro, seria um pulo. De Maringá, preciso de um ou dois dias de folga no trabalho. Os escritores se encontram em outros estados para tomar café. Isso é muito fácil para eles, gerando resultados bons. Eu fico isolado, na base do e-mail.
Qual é o seu próximo projeto?
Meu próximo livro acontece em Maringá. Se chama 27. É o numeral mesmo. Fará parte de uma trilogia que acontece em Maringá. A ideia germinal nasceu de um escritor chamado Lawrence Durrell, que produziu quatro livros, a tetralogia Quarteto de Alexandria. Os livros dessa série de Durrell mostram o mesmo fato, sob perspectivas diferentes. Quero mostrar também que as histórias podem ser contadas por focos diferentes. Os nomes provisórios dos livros da minha trilogia são 27, A Iniquidade É Cinza e Ela Tem Fogo no Rabo. Fiz O Evangelho..., mostrei para amigos e engavetei. Quando estava concluindo o 27, saiu o resultado do prêmio de O Evangelho.., ganhei e precisei engavetar o 27.




