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O declínio do homem público

Sobre instituições e demônios bem-intencionados

Não é possível dizer que o grupo liderado por Piotr Stiepánovitch não tivesse motivos para se rebelar. Os jovens niilistas, retratados por Dostoiévski, no romance Os Demô­nios, colocavam-se contra a sociedade russa da segunda metade do século 19. Tratava-se, afinal, de uma Rússia já cansada do czarismo e suas injustiças. Um país predominantemente camponês, abatido por uma sequência de conflitos militares e revoltas internas. Uma nação composta por uma maioria empobrecida e analfabeta e uma elite desgostosa, que se sentia distante e inferior em relação ao mundo europeu.

Descontada a diferença temporal, as palavras de ordem ouvidas entre os homens de bem eram semelhantes às que se escutam hoje no Brasil, quando se fala sobre nossos homens públicos, em especial os que atuam no Senado Federal. Lá como cá vivia-se um sentimento de enojamento, de desgosto profundo com as instituições.

Piotr e seus pupilos nada mais são que a recriação ficcional do grupo revolucionário Justiça Sumária do Povo, que atuou na Rússia na época de Dostoiévski. Formado por jovens educados nas melhores universidades europeias, o grupo trazia as novas ideias oriundas do mundo ocidental: misturavam o anarquismo, o socialismo e uma profunda descrença na sociedade vigente. O regime do czar estava podre. A sociedade russa, baseada nas famílias aristocráticas e na religião católica ortodoxa estava se esfacelando.

O Justiça Sumária foi uma entre as centenas de células revolucionárias que se espalharam na Rússia do peródo e que só vieram a obter sucesso em 1917. O que diferenciou a organização de tantas outras que permaneceram no ostracismo foi o assassinato de um dos seus membros, que teria resolvido romper com o movimento. O crime chocou a Rússia e o próprio Dostoiévski, que, em parte da sua vida, chegou a participar de círculos socialistas em São Petesburgo. "Eram jovens influenciados pelos conceitos vigentes na época. A ideia era de que se podia construir uma nova sociedade, demolindo a que existia e construindo outra em cima. Era a semente do pensamento revolucionário que se espalhou no século 20", diz o filósofo e colunista da Folha de São Paulo, Luiz Felipe Pondé.

De fato, a construção do "novo homem" esteve, no século passado, no centro do discurso dos regimes mais assassinos que a humanidade já conheceu – a Alemana de Hitler e a União Soviética e seus satélites, de Stálin. Embora os regimes tenham sido coerentemente exorcizados do pensamento politicamente correto ocidental, de quando em quando, a mesma lógica que os concebeu ganha ares de modernismo. São soluções ditas nas rodas particulares e, por vezes, na esfera pública. Soluções que sempre surgem quando se vivem crises profundas das instituições.

Aqui e agora

Ninguém há de negar que existe motivo para a grita em relação aos senadores de Brasília. Nesta casa, o Senado, sustenta-se um presidente no mínimo comprometido com uma base de apoio montada com objetivos eleitoreiros e fisiológicos. Usa-se toda a força de um dos poderes da República (com o respaldo da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva) para amordaçar um outro poder e assim exigir e ter sua submissão. Uma oposição também comprometida e responsável por parte dos pecados que hoje afloram tem pouco poder de cobrança. Cria-se uma situação insustentável com festivais diários de grosserias e acusações e, lá e cá, ouvem-se os muxoxos:

"Para que o Senado?" O discurso começa a surgir entre os próprios senadores. Houve quem tenha cogitado um plebiscito para ouvir o povo a respeito da importância do Senado e de seu eventual fechamento.

Lembremos do nome da organização dos demônios retratada pelo autor russo: Justiça Sumária do Povo. O povo – essa entidade abstrata – em nome da qual podem ser tomadas as grandes decisões. Esse povo pode exigir uma justiça sumária, exigir uma solução final e miraculosa e exigir o fechamento das instituições. Mas não há aí nada de democracia, como explica o sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli: "Democracia não é a vontade pura da maioria. Democracia é a representação dessa maioria e a defesa dos direitos e liberdades das minorias, garantidos pelas instituições."

Quanto se toma o povo como meio e como fim de todas as decisões, cria-se um ambiente que mistura histeria, caos e esperança infantil. Território fértil para os novos homens, aqueles que irão fazer a justiça, ainda que sumária. O Senado está podre porque lá temos políticos. Eliminemos, portanto, os políticos. Os poderes da República estão podres. Elimi­ne­mos, portanto, os poderes, se é assim a vontade da maioria.

O raciocínio, perigoso, nos es­­preita em crises como as de agora. As consequências estão postas desde que Dostoiévski nos alertou sobre os demônios das boas intenções.

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